Rafael vai ao Chile!

Demorou mais de 30 anos, mas finalmente fiz minha primeira viagem internacional.

Por Diário

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Da janela do avião vejo uma cadeia de montanhas salpicadas de neve. À primeira vista, me lembram uma estufa de padaria repleta de pães doces com cobertura de açúcar refinado. Mesmo a alguns quilômetros de distância, aquela foi a primeira vez que eu vi a “neve” de perto. E a Cordilheira dos Andes.

Alguns minutos depois o avião aterrissa de forma macia na pista do Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez. O termômetro marca trinta e quatro graus mas a sensação térmica é de quarenta e dois.

No desembarque, várias pessoas seguram placas com nomes de todas as partes do mundo. Robert, Yussef, Aleksänder… Até que vejo uma mulher com uma plaquinha de papel com o nome da minha namorada escrito em letras de forma em uma versão latina do original: Gómez ao invés de Gomes. Definitivamente estávamos no Chile.

Às vésperas dos meus trinta e dois anos de vida, é assim que começa minha primeira viagem para fora do Brasil.

Por que o Chile?

Era o final de 2017, época em que avaliamos as nossas vidas e fazemos promessas e planos para o ano que se aproxima, quando eu e minha namorada tomamos uma decisão: “vamos fazer uma viagem internacional em 2018”.

Não tínhamos um lugar específico em mente. O critério básico era ter condições de pagar pela viagem.

Todas as opções eram válidas: Europa, EUA, América do Sul, África (acho que as únicas opções inviáveis no momento eram Oceania ou Oriente por causa dos preços).

Com esse objetivo em mente, começamos a juntar dinheiro. Mas é como dizem: o proletariado não pode ter um dia de felicidade. O Real ficou ainda mais desvalorizado em relação ao Euro e o Dólar. Logo, Europa e Estados Unidos deixaram de ser opções e nos focamos na América do Sul.

Afinal, ninguém começa a sair de casa sozinho indo para outra cidade, certo? Primeiro conhecemos a nossa própria vizinhança. Opções não faltam em nosso continente.

Seguimos à risca o passo a passo de casais que querem viajar: instalamos todos os Apps que divulgam promoções de passagens aéreas, seguimos perfis de viagens no Instagram, favoritamos sites de compras coletivas de pacotes de viagem e assinamos a newsletter de vários blogs sobre o assunto

Não demorou muito e conseguimos passagens por um preço excelente. A hospedagem ficou por conta do AirBNB, que posso afirmar com certeza absoluta ser uma das melhores alternativas para pagar pouco e ficar muito bem acomodado no Chile.

Holla, Chile!

Depois de ser impactado pela beleza absurda da Cordilheira dos Andes (sério, é muito bonita e não consigo descrever a sensação de ter visto de pertinho), finalmente coloquei o meu pezinho fora do Brasil.

Viajar para fora do país pode ser algo comum pra muita gente, mas definitivamente não é pra mim. Meus pais nunca saíram do Brasil. Fortaleza foi o lugar mais longe que chegaram. Consequentemente, nunca tiveram condições de bancar uma viagem dessas.

Conseguir fazer essa viagem, mesmo que “ali na esquina da América do Sul”, foi uma vitória pessoal. E melhor ainda por ser com a minha namorada que basicamente tem uma história de vida parecida com a minha. Ela sentia exatamente o mesmo que eu naquele momento.

Passamos pela imigração e o policial responsável mal abriu a boca. Só carimbou o passaporte e liberou.

Sim, passaporte. Mesmo não sendo necessário nos países do Mercosul, eu queria ter a experiência completa de uma viagem internacional. Não me julgue. Esperei 31 anos por isso.

Já que pedi experiência completa, acabei recebendo.

Assim que minha mala surgiu na esteira, tive uma agradável surpresa: roubaram a tag com os meus dados (só nome e telefone) e conseguiram quebrar a alça do suporte usado para puxar a mala pelas rodinhas. Ou seja, eu tinha que atravessar um aeroporto inteiro carregando uma mala gigante e pesada porque os funcionários da Gol resolveram demonstrar um carinho especial pelas minhas coisas.

Mas nada poderia abalar o meu momento de brilhar no estrangeiro. Carrega a mala, estufa o peito e vai.

Saímos do aeroporto e fomos direto para o apartamento onde ficaríamos.

Um pequeno mal entendido

Chegando ao prédio onde ficaríamos hospedados, tivemos nossa primeira experiência real de contato verbal com chilenos. E com um personagem universal: o porteiro idoso de condomínio.

Essa entidade está presente em qualquer país do mundo. Muda apenas o idioma, mas o modo de agir é sempre o mesmo: eu realmente não me importo com quem entra nesse prédio desde que não me encha o saco.

Uma escolha perfeita para um primeiro diálogo. Mas antes disso, vamos problematizar um pouco.

O Brasil é um país completamente deslocado da América Latina em termos culturais. Não somos preparados para nos comunicarmos com pessoas do nosso próprio continente. A influência americana em nossa cultura é muito maior que a latina, mesmo sendo o único país de língua portuguesa na América do Sul.

Inexplicavelmente, estamos no meio de um continente inteiro que fala espanhol e, em nenhum momento da nossa vida somos ensinados a falar o idioma. A não ser que você estude em um colégio particular ou pague um curso de espanhol, dificilmente terá contato com o idioma.

Sou um purista. Eu estava no Chile, um país de língua espanhola. Eu não conversaria com ninguém em português e muito menos inglês.

Sem saber muito bem como puxar assunto, na dúvida, usei o famoso portunhol popularizado pelo “pofexô” Wanderley Luxemburgo durante sua curta passagem pelas terras madrilenas.

“Buenas tardes”! – perguntei animadamente para o porteiro.

“Buenas”, ele respondeu sem muito interesse.

“Tienes un envelope escrito Rafael en la caixinha del apartamento dezeniove ziero siete (1907)”?

“¿Cuál es el número del apartamento?”

Dezeniove ziero siete“.

Até esse momento, eu não sabia que no idioma espanhol, alguns numerais por extenso são falados de forma diferente ao que estamos acostumados. Dezenove zero sete era um desses números.

Sem entender o que eu falava, o porteiro pegou uma caneta, um pedaço de papel e bateu o dedo indicador – fazendo o gesto universal de “escreva aqui o número”.

Escrevi 1907.

Ele disse o numeral em voz alta, com um misto de deboche e mau humor: “Mil noventa y siete”.

Pegou um embrulho que estava na caixa de correio desse apartamento e me entregou. Não viu se tinha meu nome e eu também não conferir. Estava cansado depois de passar quase 5 horas sentado em um avião e envergonhado por não saber me comunicar com alguém.

Subimos para o nosso andar, de frente para o apartamento 1907.

Chegando lá, abri a caixa em que a chave deveria estar. Para a minha surpresa, o que havia dentro era um controle remoto de portão de garagem.

Pensei que, talvez, o proprietário do apartamento ainda não havia deixado a chave. Abri o app do AirBNB para mandar uma mensagem, quando me deparo com uma informação útil que havia esquecido.

O apartamento correto era o 1903 e não o 1907.

Eu odeio estar errado. De verdade. Ainda mais quando o meu erro implica em causar problemas para alguém, o que provavelmente poderia acontecer com o porteiro. Mas é o famoso ditado: “vamo fazer o quê”?

Peguei o elevador de volta à portaria para encarar o meu erro.

Eu estava esperando, no mínimo, um esporro no melhor espanhol possível dos porteiros. Mas a quebra da expectativa é sempre um dos melhores ingredientes de uma boa comédia.

O porteiro simplesmente pegou a caixa aberta com o embrulho rasgado e colocou de volta. Leu a tela do meu celular com o número do apartamento correto e me entregou o envelope certo dessa vez, fazendo com a mão direita o gesto universal de “xispa daqui agora”.

Dia 1 – Câmbio, La Moneda, Cerro Santa Lucía e La Piccola Italia

É uma verdade universalmente aceita que, no sistema capitalista, é praticamente impossível se divertir sem dinheiro. De preferência com dinheiro aceito nos estabelecimentos comerciais do país em questão. Sabendo disso, a primeira coisa que precisávamos fazer na cidade era trocar nossos Reais por Pesos Chilenos.

Segundo todas as dicas que lemos antes da viagem, se quiséssemos uma boa taxa de câmbio, o ideal seria trocar o dinheiro nas casas de câmbio de Santiago. Ou seja, nada de trocar dinheiro no Brasil, no aeroporto ou próximo do aeroporto. E como bons brasileiros que seguem à risca todas as recomendações de pessoas viajadas, assim fizemos.

As casas de câmbio de Santiago concentram-se na Rua Agustinas, no Centro Histórico da cidade. Ali você encontra a melhor taxa em relação a outros locais. É por lá também que você consegue encontrar várias agências de turismo que fazem os principais passeios, mas falarei sobre isso mais adiante.

Como bons turistas, nosso maior medo era ter o dinheiro roubado. Ao contrário de viagens dentro do próprio país, não seria possível usar cartão de débito na hora de pagar as contas. E minha intenção era passar longe do cartão de crédito, exceto em casos de emergência ou se precisasse pegar um Uber.

Um turista com dinheiro escondido em uma doleira por baixo da camisa, por mais que acredite que não esteja chamando a atenção, provavelmente passa tão despercebido quanto o cara que se veste de Elfo e desfila pela Savassi.

Na minha cabeça, a única coisa que conseguia pensar era: eu estou exalando o cheiro de turista com dinheiro pronto para ser roubado. Para melhorar ainda mais o meu disfarce, tenho mania de andar com as mãos nos bolsos em lugares muito cheios.

Se o centro de Santiago fosse uma árvore de natal, eu seria o enfeite mais brilhante naquele momento.

Mas felizmente deu tudo certo e conseguimos chegar na casa de câmbio onde também funcionava a agência de turismo a qual fechamos os nossos passeios enquanto ainda estávamos no Brasil.

Chegando lá, nos encontramos com a Jocy, meu contato nessa agência. Uma chilena que viveu vários anos no Brasil, fala um português melhor que o meu e é uma simpatia.

Sem custo adicional algum, ela deu um chip de operadora local para a minha namorada e ainda nos levou para fazer um pequeno tour pelo centro histórico de Santiago.

De tudo, o mais marcante foi estar diante da famosa La Moneda, a sede do governo chileno. Talvez um dos locais de resistência mais famosos por quem se interessa em estudar as ditaduras da América Latina.

palácio la moneda

Em 11 de setembro de 1973, após os militares iniciarem o golpe, o então presidente Salvador Allende vai para a sede do governo, onde esperava encontrar um dos seus aliados mais próximos, o General Augusto Pinochet. Ele só não sabia que, nesse momento, o general estava na base de comando participando ativamente do golpe.

Menos de duas horas depois, os militares fariam a primeira transmissão de rádio oficial exigindo que Allende, o primeiro presidente de esquerda democraticamente eleito no mundo, entregasse seu cargo e evacuasse o prédio. Caso contrário, seria atacado por tropas militares por terra e pelo ar.

Em um ato de resistência, o presidente permanece no palácio e, em maio a um cerco com tanques de guerra, faz um pronunciamento histórico ao povo chileno, diz que pagará com sua vida a lealdade do povo.

Estátua Salvador Allende

Algumas horas depois, a ameaça dos militares é cumprida. O palácio La Moneda e a casa de Salvador Allende são bombardeados por terra por tanques de guerra e pelo ar, com caças da Força Aérea Chilena. Em meio a bombas e incêndios, Allende nega-se a se render. O palácio é invadido por soldados que, enfim, tomam o controle.

O presidente foi encontrado com um tiro no queixo disparado por uma metralhadora. A versão oficial é que ele se matou. Mas acredita-se que ele foi executado.

Depois de conhecer essa parte crucial da história das ditaduras latinas, era hora de finalmente encher a barriga com o que de melhor a culinária chilena poderia nos oferecer.

A dica da nossa guia foi o restaurante La Piccola Italia. Por um preço excelente, você pode comer uma variedade incrível de comidas deliciosas. E ainda fazem promoções com desconto de 50% dependendo do horário. É um custo x benefício bom demais pra você não aproveitar.

prato com bife chorizo a lo pobre A minha escolha foi tradicional: Bife Chorizo a lo Pobre. Um combinado delicioso de bife de chorizo com batatas e dois ovos fritos sobre uma cama generosa de cebolas douradas.

Minha namorada encarou um certeiro Spaghetti con Salsa Bolognesa.

Com bebidas e a propina (gorjeta), gastamos menos de 20 mil pesos. Acredite: é uma pechincha.

A segunda parada do primeiro dia foi em mais um ponto histórico para quem se interessa sobre as ditaduras latinas: o cruzamento entre as ruas Londres e Paris.

Ali era o reduto de resistência estudantil de esquerda. E infelizmente, onde mais de 15 mil estudantes foram torturados, assassinados ou continuam desaparecidos.

Nenhum estudante que entrou nessa porta saiu.

Uma coisa que você vai notar em Santiago é como a ditadura marcou aquele povo. Seja para os que defendem ou os que lutaram e ainda são contra, fazem questão manter esse fantasma vivo para que não seja esquecido.

No chão desse quarteirão existem blocos com os nomes de desaparecidos durante o regime ou de estudantes assassinados.

Depois de fazer esse tour histórico, partimos para conhecer o famoso Cerro Santa Lucía. Um parque no coração da cidade, com um mirante que fica no topo de uma subida de algumas centenas de metros.

É um dos pontos turísticos mais famosos dentro do centro de Santiago. Vale muito a pena para quem quer ter uma visão espetacular da cidade e, de quebra, fazer uma atividade física depois de comer quase 1 quilo de carne, batata frita e cebola.

Recomendo.

Dia 2 – Cajon Del Maipo e Embalse el Yeso

O relógio marcava 6h50 da manhã quando o nosso guia enviou uma mensagem no Whatsapp avisando que já nos esperava na portaria do prédio. Tal qual um Uber coletivo, ser buscado na porta de casa pela van da agência é uma ótima maneira de começar um passeio turístico.

Como bons turistas brasileiros, o nosso destino seria a represa Embalse el Yeso e o Cajón del Maipo com direito a piquenique. Se você der uma rápida passada por instagrams de brasileiros no Chile, em 100% dos casos você verá uma foto em um desses dois lugares. É, talvez, o ponto mais próximo que a gente pode chegar da Cordilheira dos Andes pagando um preço relativamente barato sem precisar de equipamento de escalada.

Vou deixar duas dicas aqui:

1- se você tem problemas de enjoo em estradas com muitas curvas, talvez seja uma boa ideia levar um Dramin.

2- passe protetor solar. Segundo os próprios chilenos, a camada de ozônio é praticamente inexistente sobre o Chile, então, os raios solares chegam com muito mais radiação. Eu cheguei ao ponto de “queimar” as laterais do meu couro cabeludo, já que uso um corte bem mais baixo nessa parte.

Depois de enfrentar a estrada em forma de labirinto do Almanacão de Férias da Turma da Mônica, finalmente chegamos ao destino. E eu não estava preparado para essa visão.

Acredito que Embalse el Yeso é o lugar mais bonito em que eu já estive até hoje. 

Como a nossa viagem foi durante a primavera, demos uma sorte absurda de ter nevado alguns dias antes. O suficiente para registrar no feed do Instagram.

Na verdade, não tem muito o que fazer no Embalse el Yeso a não ser, justamente, tirar fotos. Como é uma represa, existem pessoas trabalhando próximas do local. O tempo todo passam caminhões por lá e não tem nenhum outro atrativo a não ser o fator UAU.

Saindo de lá, paramos no Cajón del Maipo, um cânion que dá uma visão ainda mais espetacular de todo esse cenário.

Por lá fizemos o piquenique com os outros turistas. É algo bem simples, até porque o nosso pacote foi bem barato. Outras agências de viagem fazem pacotes mais completos e o piquenique inclui até churrasco. Não fazíamos muita questão disso.

Era hora de voltar para casa.

Dia 3 – Bairro Yungay Histórico, Museu de la Memoria y los Derechos Humanos e uma jornada pelo metrô de Santiago

Pelo menos uma vez na vida, todo mundo já passou pela situação de descobrir um restaurante, um barzinho ou um lugar surpreendente na cidade. Aquele local que você vai sem expectativa alguma e se torna, de alguma maneira, uma das coisas mais incríveis que você já conheceu. E quando você tem a companhia de alguém que conhece cada detalhe da história desse local, o passeio se torna algo inesquecível.

O nosso lugar assim em Santiago foi o bairro Yungay.

Mas antes de contar sobre essa experiência, precisamos falar sobre o metrô de Santiago.

Sempre vejo as pessoas falando sobre o metrô de São Paulo (pois é, também nunca fui lá) ou de Nova York como bons exemplos, que ligam a cidade de ponta a ponta por meio de várias linhas diferentes.

Veja bem, eu moro em Belo Horizonte. A minha experiência com metrô é uma linha reta que vai de Venda Nova até Contagem. Ou seja, eu não tenho um padrão muito bom para fazer comparações em termos de transporte metroviário.

Para chegarmos ao bairro Yungay precisaríamos usar o metrô chileno. Quando vi que o metrô de Santiago possuía várias linhas diferentes, o meu sentido-pão-de-queijo (que é uma resposta natural do nosso corpo quanto às chances de se meter em uma grande enrascada) apitou com todas as forças.

Era um alarme falso. Foi nesse momento que eu compreendi o que é um metrô de verdade.

Para começar, realmente existem várias linhas ligando cada uma das regiões da cidade. Uma linha que vai de leste a oeste, outra que vai de norte a sul e linhas paralelas que levam a outros bairros.

Confuso? Nem um pouco. As informações das estações estão muito bem explicadas, principalmente com o uso de cores nas plataformas, placas de informação e nos próprios trens. Sem contar a simpatia dos funcionários.

Somando tudo isso com as dicas que o nosso guia passou para chegarmos ao destino, não corremos o menor risco de ficarmos perdidos.

Outra fator que me chamou a atenção é a velocidade que os trens atingem. É muito rápido. No metrô de Belo Horizonte, os veículos não devem passar dos 60km/h em um dia de ousadia dos maquinistas. Em Santiago, atingiam 100km/h poucos segundos depois de sair da estação. Para um mineiro, é quase como estar em um trem-bala.

Em poucos minutos estávamos em nosso destino, preparados para conhecer esse tal bairro Yungay.

Ainda no Brasil, minha namorada comprou uma das experiências do Airbnb: Bairro Yungay Histórico + Degustação.

As Experiências do Airbnb são “programas” que moradores dos locais colocam à venda justamente com o objetivo de proporcionar experiências que agreguem ainda mais à sua hospedagem. Vão desde passeios de bicicleta à city tours por locais menos explorados pelos turistas.

Eu, particularmente, não tinha muitas expectativas quanto a esse passeio justamente por não tê-lo visto em nenhum roteiro conhecido. E também não procurei ler as avaliações na página do Airbnb. Minha namorada tinha um crédito disponível por lá e resolveu comprar essa experiência.

Talvez tenha sido o dinheiro mais bem investido da nossa viagem.

O Bairro Yungay foi o primeiro bairro planejado do Chile, há mais de 150 anos. Em cada rua é possível encontrar casas incrivelmente antigas quanto monumentos que narram vários momentos da história chilena. São estátuas, igrejas, centros culturais e até salões de beleza.

Se eu puder dar um conselho, não faça esse passeio por conta própria. Seria como visitar qualquer outro lugar com algumas casas bonitas, grafites de resistência e outras coisas. Não teria a menor graça. O que vale a pena nesse passeio é o conhecimento do guia, o Ariel.

O Ariel é chileno, mas morou alguns anos no Brasil, então entende e fala português tranquilamente. E conhece o bairro Yungay como a palma da mão. Ele tornou a experiência ainda mais incrível contando os detalhes históricos, de arquitetura, de importância histórica da região.

Coisas que você não descobriria por conta própria, deixando a experiência muito pobre.

O passeio termina com uma degustação de vinhos e harmonização com algumas comidas típicas em um dos ambientes mais incríveis que eu já estive em toda a minha vida. Sei que não sou tão relevante assim a ponto desse post se tornar um enorme sucesso, mas não vou contar por aqui para não estragar a experiência de ninguém.

Depois de um tour inacreditável como esse, nossa próxima parada era no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos.

Como eu disse mais acima, o Chile é um país muito politizado e a ditadura teve um papel importante na formação política dos cidadãos. Ao contrário do Brasil, onde vivemos essa onda de revisionismo histórico, em que insistem dizer que não houve uma ditadura e sim uma “revolução”, no Chile, eles fazem questão de manter a história viva.

Um dos instrumentos para que essa memória não seja apagada é o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos.

São quatro andares dedicados à uma exposição permanente com documentos, fotos, vídeos, relatos e tudo o que você possa imaginar relacionado ao período que durou de 1973 a 1990.

Cada andar é dedicado a um tema, que vai desde os resultados da Comissão da Verdade, passando pela cronologia do golpe, os manuais de tortura, cartas de torturados e mortos políticos, vídeos e jornais da época e casos marcantes. Em meio a isso, pertences pessoais das vítimas, relatos de sobreviventes e familiares.

Em uma das obras, através de três televisores, você pode acompanhar “em tempo real” o início do golpe, com o cerco à Valparaíso até o bombardeio e tomada do palácio La Moneda, com a retirada do corpo do presidente Salvador Allende.

Em outras salas, várias fotos e o documento que oficializou o novo regime.

Uma curiosidade muito comum nos países sul-americanos que sofreram com regimes ditatoriais é a justificativa: o golpe é sempre motivado para proteger a democracia de uma ameaça comunista que nunca chega nem perto de se materializar. No Brasil tivemos o histérico Plano Cohen e no Chile, uma mentira chamada Plan Zeta.

É uma coisa que, pelo menos no Brasil, sempre serve de combustível para alimentar o medo e o messianismo de candidatos de direita.

O Museo de la Memoria y Derechos Humanos é uma visita obrigatória se você se importa com esses assuntos.

Dia 4 – Vinícola Undurraga, Cerro San Cristóbal e Costanera Center

Segundo o Instituto Rafa Barbosa de Pesquisas Avançadas, existe 95% de chances de todos os seus passeios no Chile terminarem com uma garrafa de vinho.

Para honrar essa tradição cultural, nada mais justo que visitar uma das várias vinícolas próximas à Santiago. Seguindo a recomendação de amigos, a escolhida foi a Viña Undurraga.

Eu não bebo nenhum tipo de bebida alcóolica, então o passeio foi mais para conhecer todo o processo de produção de um vinho de qualidade, desde as técnicas de plantio das uvas até à fermentação. Ao final do tour, posso dizer que hoje me considero um especialista em vinhos, mesmo não bebendo.

Para quem gosta dessa bebida, pode ficar tranquilo: os passeios pelas vinícolas sempre terminam com uma degustação de alguns dos melhores exemplares.

Na parte da tarde, nossa segunda parada foi o famoso Cerro San Cristóbal, que tem o ponto mais alto dentro de Santiago com uma vista inacreditável.

O Cerro San Cristóbal fica dentro do Parque Metropolitano de Santiago. E por ser um “cerro” no meio da cidade, existem algumas maneiras para se chegar ao topo, dependendo da sua localização.

Existe a opção de ir a pé, o que eu não recomendo já que é uma subida de mais de 1km morro acima, ou então através do funicular, uma espécie de bondinho sobre trilhos que é içado morro acima por um sistema de cabos de aço. A terceira opção é usando o teleférico, que faz o trajeto de subida e descida.

No nosso caso, subimos pelo funicular, já que a entrada fica no bairro Bellavista, onde estávamos hospedados e descemos de teleférico até o bairro Providencia, onde ficava a nossa próxima parada – o shopping Costanera Center.

Sobre o Costanera Center, tirando o fato de ter algumas lojas que não chegaram ao Brasil, continua sendo um shopping.

Tem um andar de moda e acessórios femininos, um andar de moda e acessórios masculinos, um andar de equipamentos esportivos, um andar de equipamentos de informática e tecnologia, um andar para a praça de alimentação e cinemas.

Como bons brasileiros que viajam para o exterior, passamos por lá para ver se compensava comprar alguma coisa. A real é que o preço é o mesmo, cobrado em Pesos Chilenos.

O ponto alto desse dia (tirando o Cerro San Cristóbal), foi um hambúrguer que comemos em um dos restaurantes da praça de alimentação. Não sei se era a fome acumulada pelos exercícios físicos, mas estava tão saboroso que entrou fácil no meu TOP 5 Melhores Hambúrgueres.

Nesse dia estávamos tão cansados que não tínhamos energia nem para pegar o transporte público. Apelamos para o bom e velho Uber, onde tive a oportunidade de conhecer e conversar com um venezuelano. E ao contrário do que a gente pensa por aqui, os caras não vem para o Brasil por ser um país de oportunidade. Quem vem para o Brasil é simplesmente os venezuelanos que não tem condições de imigrar para os outros países da América do Sul.

O motorista, que não me lembro o nome, cruzou a Colômbia para chegar ao Chile. Em quatro meses já dirige um Uber e tem uma boa condição de vida. Enquanto as pessoas que cruzaram a fronteira em Roraima vivem em condições precárias, o que só comprova que não estamos nem perto de ser um bom destino para refugiados.

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Dia 5 – Valparaíso, Viña del Mar e uma cilada oceânica

Depois de ser impactado pela beleza da Cordilheira dos Andes, ainda faltava mais um item na minha lista. Eu havia cruzado um continente inteiro, praticamente de leste a oeste. E estando do lado oposto da América do Sul ao qual estava acostumado, eu precisava conhecer o Oceano Pacífico.

Pode não parecer muita coisa, mas como eu disse nos primeiros parágrafos, demorei mais de 30 anos para sair das linhas imaginárias que definem as fronteiras do Brasil. Chegar ao “outro lado do mundo” era importante pra mim. Ver um outro oceano, por mais que seja exatamente igual ao Atlântico, era a cereja do meu bolo particular.

O destino onde eu realizaria esse sonho tinha um nome: Valparaíso.

Valparaíso é uma cidade portuária, que fica a algumas horas de Santiago. Além de ser um patrimônio cultural da humanidade, também abriga a sede do poder legislativo chileno e ficou marcada por ser a primeira vítima das forças armadas chilenas no dia do golpe militar, sendo bombardeada pela Armada do Chile, a marinha chilena.

A jornada rumo ao litoral chileno começou às 7h da manhã de uma sexta-feira. Na van, uma mãe e um filho brasileiros, juntos comigo e a minha namorada preenchiam a cota de brasileiros, mas o destaque ficou por conta de um grupo de amigas equatorianas que pareciam ser aposentadas curtindo a vida. Elas estavam vivendo o sonho.

Na minha cabeça, elas eram a versão latina da trupe formada por Hebe Camargo, Nair Belo e Lolita Rodrigues. Muitas piadas de duplo sentido em espanhol, muitas risadas e um gosto peculiar pela ostentação financeira. Eu fiquei com vontade de ser amigo delas, mas a barreira do idioma e o bom senso prevaleceram, sobrando apenas a admiração por aquele elenco da edição perdida de Mulheres Ricas.

Depois de aproveitar o trajeto para colocar o sono em dia, nossa primeira parada em Valparaíso foi na casa do escritor Pablo Neruda. Na verdade, uma das várias casas que ele tem no Chile, cada uma dedicada a uma de suas amantes.

Não tem nada mais latino que isso. Inclusive, o Pedro Paschal seria um ótimo Pablo Neruda jovem caso surja alguma adaptação da sua biografia.

Transformada em museu, a casa estava em obras e não deu para tirar muitas fotos, mas foi possível constatar que o Neruda sabia viver.

Visita boa é aquela que vai embora cedo e depois de meia hora já estávamos na van rumo a outros pontos turísticos da cidade.

Por ser o passeio mais longo da viagem, o tempo das paradas era muito curto. Basicamente o suficiente para tirar fotos e o guia deixava isso claro a cada nova parada.

Lembra das Mulheres Ricas do Equador? Pois é. Elas não queriam cumprir regras e estavam mais que certas. A cada parada elas faziam a festa, andavam para todos os lados, tiravam várias fotos e deixavam o guia cada vez mais exaltado. Mas o carisma delas era tão grande que o guia simplesmente não conseguia ficar com raiva.

Depois de passar por todos os pontos históricos e tirar as fotos para compor o feed do instagram, chegava o momento da verdade.

Durante todo o trajeto eu tinha vislumbres do oceano. À medida que descíamos em direção ao porto, a brisa marítima se tornava mais forte. O cheiro inconfundível de mar, peixe e óleo de motor se tornaram uma presença constante.

Eu sabia que estava perto agora.

Após uma baliza perfeita, colocando uma van no espaço onde mal caberia um Fiat 147, nosso guia abriu as portas e nos avisou: esse é o porto de Valparaíso. Vamos ficar aqui por meia hora. Não me atrasem e tomem cuidado para não serem roubados.

Dando mais uma prova de ser um povo politizado, vi várias faixas contra o governo e o descaso contra os trabalhadores do porto. Em especial pelo assassinato de um líder sindical, que inclusive fazia uma referência à outra morte famosa aqui para os nossos lados.

Andei devagar em direção ao cais. Agora o cheiro era mais forte e lá estava ele. Imenso. Infinito. Do outro lado do continente. O Oceano Pacífico.

Eu não precisava nem molhar a mão para me sentir realizado. Na verdade, não quis fazer isso pois havia mais óleo que água nessa parte. Deixei essa experiência para mais tarde.

Meia hora depois a nossa van partia rumo à Viña del Mar, um dos destinos litorâneos mais conhecidos do Chile.

Naquele momento eu ainda não sabia, mas estava indo em direção à única roubada em que nos metemos durante essa viagem. Posso dizer que, de alguma forma, fomos avisados. Mas a nossa fé na humanidade e na bondade do ser humano acaba nos cegando.

Viña del Mar é uma área muito bonita. Lembra bastante a orla da zona sul carioca, com prédios de alto padrão. Por ser próxima da Argentina, é um dos destinos mais procurados pelos hermanos.

A nossa parada ali seria rápida. Almoçaríamos e poderíamos molhar o pé se quiséssemos.

Sobre o almoço…

Finalmente paramos no restaurante. Por fora, parecia muito bonito. De frente para o mar, com uma varanda ampla e uma decoração bem oceânica. Achei curioso o fato de quase todas as vans que estavam fazendo esse roteiro terem parado nesse mesmo restaurante.

De uma hora para outra ele ficou cheio.

O guia disse que esse restaurante era uma ótima opção, mas se quiséssemos poderíamos ir para outro. Levando em conta que tínhamos apenas 1h30 para almoçar e os demais restaurantes estavam um pouquinho distante, a lógica falou mais alto e ficamos por lá mesmo.

Um observador atento como eu teria achado estranho o fato de um garçom ter recolhido todos os cardápios que estavam próximos às mesas assim que o restaurante começou a encher, retornando pouco tempo depois com cardápios menores.

O homem quando está com fome não quer guerra com ninguém, apenas comer. Evitando qualquer tipo de conflito, pedi o nosso cardápio.

O primeiro choque foi observar que todas as comidas do menu estavam muito mais caras que o normal. Alguns pratos únicos e simples custando mais que o que estávamos pagando para duas pessoas.

Mas a minha fé na bondade inerente aos seres humanos me cegava.

O prato que tinha o melhor custo benefício era a picanha para duas pessoas. O valor era o equivalente a duas refeições para duas pessoas. Pedimos.

O garçom, com uma postura de lamentação, disse que não havia picanha naquele dia.

Minha namorada não é fã de peixe ou frutos do mar. Eu também não estava muito no clima para esse tipo de carne, então fomos na segunda opção mais aceitável: bife à milanesa com batata frita.

Em qualquer lugar do mundo essa refeição não passaria de R$ 30. Mas naquele restaurante ela custava o equivalente a R$ 75,00.

Pelo valor cobrado, o mínimo que eu esperava era vir algo tão caprichado quanto o chorizo do primeiro dia, certo?

Pobre Rafael.

O bife que veio era menor que a minha mão – e eu já tenho mãos pequenas. A batata frita pequena do McDonalds vem em maior quantidade que as batatas que acompanhavam o prato. E para completar, mesmo pedindo ao ponto, o bezerro veio praticamente berrando enquanto sangrava.

Foi, de longe, uma das piores e mais caras refeições que eu já fiz em toda a minha vida. E olha que de comer eu entendo.

A única coisa que compensou essa experiência negativa foi colocar a mãozinha nas águas do Oceano Pacífico e ver, de perto, pela primeira vez, leões marinhos.

A volta pra casa foi extremamente cansativa, pois pegamos o horário de pico de uma sexta-feira em Santiago. O trânsito, que já não era bom, estava ainda pior.

A nossa estadia chegava ao fim.

A Volta pra Casa

Nosso vôo estava marcado para sair de Santiago às 3h20 da manhã com chegada em São Paulo prevista para 7h.

Lembro que no início da viagem eu disse que queria uma experiência completa de brasileiro saindo do país pela primeira vez. O que eu não tive na ida, a vida me reservou para a volta. A começar pela fila gigante para fazer check-in e despachar as malas.

Chegamos ao Aeroporto por volta de 0h30. Quase 3 horas antes da partida. Na minha inocência, presumi que seria um vôo vazio por causa do horário. Eu não poderia estar mais enganado.

Ficamos quase 2 horas na fila para despachar a bagagem. Era apenas o começo da “experiência completa de viagem internacional”.

Depois de despachar a bagagem, fomos em busca do terminal. No meio do caminho aproveitei para realizar um sonho antigo e comi em um Dunkin’ Donuts. Os Simpsons criaram uma expectativa muito grande na cabeça do jovem Rafael que simplesmente não foi correspondida pela vida real. “Não é isso tudo o que falam”.

Depois de ter as expectativas frustradas pela famosa marca da rosquinha rosa, enfrentamos a segunda batalha da noite que era encontrar um assento próximo do nosso terminal, já que naquele dia todo mundo resolveu viajar de madrugada.

Em meio aquele caos, algo me chamou a atenção. Um gringo – muito provavelmente europeu e a julgar pela minha experiência assistindo os reality shows da MTV, deveria ser britânico – estava confortavelmente deitado usando três cadeiras.

Levantou os olhos do seu Ipad, me encarou, cumprimentou e voltar a rir do que quer que estivesse assistindo. Nesse ponto da viagem – que ainda nem começara direito – eu já estava tão cansado que simplesmente não consegui discutir ou falar qualquer coisa. Me sentei no primeiro banco que apareceu.

Depois de algum tempo, finalmente embarcamos rumo à São Paulo.

Graças a uma dose caprichada de Dramin, acordei praticamente no mesmo momento em que o piloto aterrissava em solo brasileiro. Eu estava a apenas duas horas da minha casa, da minha cama, do meu chuveiro. Eu já podia sentir o cheiro do meu travesseiro.

Mas eu comprei o pacote completo, né?

E ninguém me avisou que o pacote completo incluía chuva em São Paulo atrasando todos os vôos do Aeroporto de Guarulhos. Inclusive o meu.

Foram quase 2 horas em pé pois não havia nenhum lugar para me sentar já que todos os assentos e espaços no chão estavam ocupados por passageiros rumo a todos os cantos do Brasil.

Eu já estava quase desistindo de viver quando finalmente abriram o nosso portão de embarque. Mas calma, ainda tinha uma última etapa.

Ao contrário do aeroporto de Confins, um lugar civilizado, onde as pessoas embarcam no terminal sem precisar sair do aeroporto, em Guarulhos nós precisamos pegar um ônibus que nos levaria para o avião. Sim. Eu ainda tive que pegar mais um ônibus antes de finalmente voltar pra casa.

Estava tão exausto que, ao entrar e me acomodar no avião, apaguei novamente, acordando somente em terras mineiras enfrentando turbulência.

Mas vencemos. Chegamos vivos e bem. Em Belo Horizonte e ao final desse texto, que ficou gigante.

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3 Responses to " Rafael vai ao Chile! "

  1. rafabarbosa disse:

    Fala, Gilberto! Valeu pelo comentário.

    Cara, o nosso tempo lá era muito curto. A gente tentou colocar no roteiro essas coisas bem turísticas mesmo, tipo vinícolas, Cajon, Valparaíso e tal. E conhecer o máximo de coisas possíveis que pudéssemos fazer a pé. Acho que por isso rendeu tanto.

    Mas olha só, na próxima oportunidade, faça pelo menos o passeio pelo bairro Yungay. É inacreditável MESMO!

    Abraço!

  2. Gilberto disse:

    Cara… fui pro Chile em 2016, fui em mais lugares que você, mas lendo seu excelente texto, senti que não curti o tanto quanto deveria, principalmente relacionado às partes históricas. Foi um passeio bem burrão mesmo. Enfim, parabéns pelos seus textos, curto há muito tempo. Sou de BH também mas devido a profissão, sou praticamente um andarilho. Grande abraço

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  1. […] o meu post sobre o Chile. Lá eu conto sobre a viagem em si e como essa ideia […]

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