Desacordo intestinal

A triste história de um intestino que perdeu a vontade de trabalhar.

Por Diário

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Ele levanta-se da cadeira, bloqueia o computador e coloca o celular no bolso. Ajeita a calça que estava caindo e segue obstinado rumo ao seu objetivo.

Sente a mudança brusca de temperatura ao sair da sala resfriada pelo ar-condicionado para o corredor com temperatura ambiente.

Passa pelos setores de cabeça baixa esperando que ninguém adivinhe onde está indo. Alguém o cumprimenta e ele devolve com um aceno de cabeça. O trajeto é curto, mas o tempo é relativo nesse momento. A travessia parece uma eternidade.

Abre a porta na esperança de não encontrar ninguém. O coração bate mais rápido e as mãos começam a suar quando percebe que não está sozinho. Algumas pessoas escovam os dentes, outras usam o mictório e tem até alguém trocando de roupa. Passa pelo meio dessa pequena multidão desejando ser invisível.

Verifica se a fechadura da primeira cabine está aberta. Abre a porta e se preparara para seguir o fluxo determinado pela natureza.

Cumpre todo o ritual de limpeza do assento, em seguida faz a hashtag (#) de papel higiênico e finalmente descansa. Até aqui não houve nenhuma quebra de protocolo.

Do lado de fora, uma conversa aleatória sobre assuntos que ele não tem o menor interesse.

Pessoas entram e saem do banheiro. Alguém assobia a abertura de Naruto.

Pelo menos o sommelier de odores não apareceu. Apesar de ser desconfortável, ele sempre acerta quem está na cabine e o que essa pessoa comeu no almoço. Um olfato apurado e desperdiçado.

Do lado de dentro da cabine a ansiedade aumenta e a perna fica inquieta. Faz oito minutos que ele está ali, com o resultado de um café da manhã e almoço caprichados pronto para encerrar o ciclo da digestão, mas seu intestino e esfíncter não entram em um acordo. Não conseguem discutir os termos do trabalho já que a todo momento são interrompidos.

Do lado de fora alguém começa a cantar Henrique & Juliano quando ele percebe que não haverá consenso. Sobe a calça, dá descarga e volta para a sua mesa.

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Comecei esse post com um storytelling parecido com aqueles que as pessoas tem usado no Linkedin.

Quem me acompanha pelo blog há anos, sabe que eu sou uma pessoa com o intestino bem regulado. Existe farta literatura sobre esse assunto escondida por aqui (talvez você encontre alguns easter eggs nesse post). Pensei que fosse um assunto encerrado nessa nova fase, mais maduro, mais centrado, porém preciso retomá-lo mais uma vez.

Eu passei os últimos 4 anos e 7 meses trabalhando em um local com banheiro individual.

Nos meus momentos de necessidade e relaxamento, é essencial contar apenas com o silencio e meus próprios pensamentos. Eventualmente, a gente acaba escutando um ou outro barulho natural que faz parte desse processo. Mas na maior parte do tempo, a tranquilidade impera.

Eu fiquei mal acostumado.

Ter um banheiro individual em uma grande empresa é um privilégio. Eram 5 banheiros ao todo, dois deles masculinos, em um ambiente em que havia apenas cinco homens na maior parte do dia. Era mais que suficiente para atender a demanda.

Foram alguns anos de tranquilidade e estabilidade intestinal.

A vida aconteceu e em dezembro mudei de emprego. A empresa nova oferece algumas comodidades que a anterior não possuía como sinuca, totó, video-game, cadeira de massagem, frutas liberadas o dia inteiro e o principal benefício na minha opinião: é muito perto da minha casa.

Mas existe uma regra não escrita: a vida te dá com uma mão e tira com a outra.

O banheiro da nova empresa é coletivo.

Duas cabines, dois mictórios e dois boxes para banho. E ao contrário da outra empresa, deve ter pelo menos outros 40 ou 50 homens trabalhando no mesmo horário que eu.

Meu intestino continua funcionando com a precisão de um relógio suíço, porém estou passando pela situação de não conseguir me concentrar com tanta gente entrando e saindo do banheiro, cantando, conversando, tentando abrir a porta, avaliando o cheiro do resultado final e, em alguns casos, até mesmo conversando com quem está na cabine fazendo suas necessidades.

Eu não consigo me concentrar assim.

Eu não consigo dedicar a atenção que esse momento merece.

Eu não estou conseguindo cagar no trabalho e isso não está sendo legal!

Isso nunca havia acontecido antes. Já trabalhei em empresas com banheiros coletivos, com cabines, nessa mesma situação. Mas acredito que os quase 5 anos de vida fácil fizeram com que meu esfíncter se acostumasse com o luxo e a falta de esforço para conquistar os objetivos.

É como se no mundo do meu esfíncter, ele tivesse saído da escola particular Waldorf e agora precisa estudar em um colégio público de bairro. Ele simplesmente não estava preparado para essa mudança brusca de realidade.

Estou tentando trabalhar essa situação, mas confesso que não estou obtendo bons resultados. Hoje eu cogitei ir em casa só para usar o banheiro. É esse o nível de desespero que está me acometendo já que não estou conseguindo concluir o ciclo da digestão.

Espero que essa situação se resolva nas próximas semanas. Talvez seja essa coisa de ser novato.

Ainda preciso me acostumar com a nova realidade, com o molde do assento, com o “som ambiente”. Espero que o meu intestino supere essa dificuldade e volte a me dar alegria.

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