Por que eu sou contra a flexibilização da posse e do porte de armas

Eu nunca gostei de armas, mesmo convivendo com elas desde que nasci.

Por Diário

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Quando fiz o reboot do blog, prometi a mim mesmo que não falaria sobre esse tipo de assunto por aqui. O que fosse mais sério abordaria no Medium, onde realmente tento desenvolver minha escrita em vários estilos.

Porém, o massacre que aconteceu em Suzano me fez abrir essa única exceção, uma vez que toca em um assunto que sempre me incomodou e me incomoda muito mais hoje em dia.

Eu sou completamente contra o porte e a posse de armas.

Passei onze anos da minha vida estudando em um colégio onde praticamente 100% dos alunos tinham armas em casa.

Passei onze anos da minha vida estudando em um colégio onde alguns dos funcionários possuíam armas em suas salas.

Passei onze anos da minha vida estudando em um colégio que ficava a menos de 50 metros de um paiol de armas.

Por sorte, nesses onze anos nunca aconteceu nada parecido com o que vimos em Suzano e em Realengo em 2011.

O Massacre de Columbine aconteceu em 2001.

Nessa época eu estava na oitava série.

Por muitos anos, os tiroteios em massa em colégios e universidades eram algo distante da nossa realidade.

Coisa de americano. Só nos Estados Unidos que isso acontecia.

Hoje é impossível pensar assim.

Globalização que chama.

Hoje eu teria medo de ir para o meu antigo colégio sabendo que qualquer aluno poderia estar com uma arma escondida na mochila.

Eu sou completamente contra a flexibilização da posse e do porte de armas.

Pode até parecer contraditório pensar assim, já que sou filho de militar e basicamente cresci em um círculo de amizades onde era comum ver pessoas armadas.

Mas é justamente por isso que sou radicalmente contra.

Só quem convive com uma arma dentro de casa sabe a angústia que é perceber que o tom de voz em uma discussão está aumentando.

A arma não serve para defender, ela serve para intimidar, mesmo que sutilmente.

Só quem convive com uma arma dentro de casa e com pessoas que sofreram ou sofrem de depressão sabe como é deixar de fazer muitas coisas para não correr o risco de deixar alguém sozinho.

Você pode até dizer que nesse caso específico, se tiver de acontecer alguma coisa, o método não importaria.

Mas a arma é feita para matar e não para “se defender”, como o segundo filho disse hoje em entrevista.

Nem o policial quer reagir

Só quem convive com alguém que anda armado o tempo inteiro sabe que, hoje em dia, até essa pessoa que tem treinamento e mais de 35 anos de experiência (e por aqui eu quero dizer vasta experiência no uso de uma arma), dificilmente reage a um assalto se tiver essa escolha.

Lembro que na minha infância uma arma era tratada exatamente como deve ser: uma ameaça.

Algo que é capaz de matar e por isso deve ficar fora do alcance de crianças.

Mas crianças são tão imprevisíveis quanto um assaltante armado.

E não diga que essa comparação é exagerada, pois explicarei nas próximas linhas.

Um assaltante, independentemente de estar são ou drogado, é extremamente imprevisível.

Eu não tirei essa informação do Instituto DataCu.

Essa é uma informação prestada pela própria polícia militar ao orientar a não reagir a um assalto.

A mistura de tensão, adrenalina e instabilidade emocional e psicológica devido ao uso de entorpecentes faz com que seja impossível prever o que um assaltante fará.

Para ele, qualquer movimento pode ser entendido como uma reação.

O tranco que um carro dá quando o motorista tira o pé da embreagem com a marcha engatada pode ser confundido com uma tentativa de fuga da vítima durante um assalto.

Quantas pessoas já morreram assim?

Qualquer movimento brusco pode ser entendido como uma reação durante um assalto.

Como o assaltante não faz a menor ideia de quem você é, pode interpretar que é um policial reagindo.

Esses são apenas alguns dos motivos que familiares e amigos militares já me falaram do porque dificilmente reagem a um assalto.

Se o próprio militar com treinamento e experiência diz isso, o que leva a crer que você, entusiasta de uma política de armamento, que não tem experiência nenhuma e terá no máximo algumas horas em estande de tiro, está apto a manusear uma arma?

A criança é tão imprevisível quanto o assaltante por um simples motivo: curiosidade.

Eu sempre soube onde meu pai escondia o revólver dentro de casa.

Durante a infância, ele o colocava no alto do guarda-roupas assim que chegava do serviço.

Se eu quisesse pegar a arma, bastava uma cadeira.

Depois que fiquei mais velho, ele passou a não se incomodar em escondê-la.

Ela sempre esteve ali, na gaveta do quarto ou na bolsa de trabalho.

Por não gostar de armas desde cedo, eu nunca tive sequer a curiosidade de segurar em uma arma para “saber como é”.

Depois de velho já teve situações em que precisei manusear a arma, mas a sensação, por mais seguro que estivesse, era que poderia dar merda a qualquer momento.

Não é toda criança ou adolescente que age assim.

Principalmente pelas pessoas que eu conheço e não convivem com armas.

Para elas, parece ser a coisa mais incrível do mundo.

É quase como se fosse a espada do He-Man que garante poderes incríveis para quem a possui.

Abrir mão da vida

A arma tem dois poderes: o de matar e o de criar coragem em pessoas que normalmente não agiriam violentamente em situações do dia a dia.

Não precisa nem se esforçar muito para encontrar milhares de resultados no Google de notícias sobre pessoas que cometeram homicídio durante brigas de trânsito, discussões em condomínios, em festas, baladas, dentro de casa, com vizinhos e desconhecidos em geral.

“Esse número seria menor se a outra pessoa também tivesse uma arma”!

Não seria.

Estaria potencializando uma situação que já é atípica em algo que não conseguimos nem imaginar.

Eu sou uma pessoa muito estressada.

Principalmente no trânsito.

Mas nunca cheguei ao ponto de iniciar uma briga com alguém. Eu acabo xingando comigo mesmo.

Em 2013 eu passei no teste psicológico durante o concurso da Polícia Militar.

Ou seja, os próprios especialistas da Polícia Militar atestaram que eu possuía total e completa condição de manusear uma arma na eventualidade de me tornar um policial.

Só que eu não quis seguir adiante.

Agora imagine a coragem que eu ganharia instantaneamente ao ter uma arma comigo.

Talvez eu não teria mais a amarra social de evitar brigas com outros motoristas sabendo que eu tenho um tipo de poder que intimida.

Eu já cansei de ver essa situação dentro de casa.

Eu já cansei de ver essa situação acontecendo com amigos.

O problema é quando você está na outra ponta, sem saber se o motorista do outro carro é quem possui uma arma.

Os tiroteios em massa

Por sorte, no Brasil não temos fácil acesso a armas de grosso calibre como nos Estados Unidos (não é mentira quando dizem que é possível comprar uma arma no Wal-Mart).

 

Um cara de 25 anos e um adolescente de 17 conseguiram ter acesso a armas.

No caso de Realengo foi a mesma coisa.

Essas pessoas não compraram armas em lojas especializadas.

Não passaram pelo procedimento vigente hoje em dia.

Compraram armas que provavelmente foram roubadas de pessoas com posse, de militares, de vigias de banco ou de carro forte.

Em muitos casos, são armas desviadas de batalhões do exército, delegacias, penitenciárias (desviadas dos agentes), de batalhões da polícia militar e até mesmo da Polícia Federal.

Imagina quem já tem uma arma em casa, como foi o caso durante toda a minha infância e adolescência?

Arma não mata sozinha. A pessoa é quem mata.

Mas ao contrário de um carro, de um liquidificador e de uma faca, a arma foi desenvolvida com esse único objetivo.

Se não fosse para matar, teriam inventado o taser antes da mistura entre pólvora e um equipamento que gera pressão no chumbo a ponto de perfurar o corpo de outro ser humano.

Nos Estados Unidos fica cada vez mais claro que a facilidade de se conseguir uma arma tem aumentado gradativamente o número de tiroteios em massa.

No Brasil, ainda que de forma ilegal, é caro conseguir uma arma.

Especialmente fuzis que custam o mesmo que um carro.

Eu não gostaria de ser criança nos dias atuais.

Eu não gostaria de ser pai nos dias atuais.

Eu não gostaria que os professores dos meus filhos andassem armados, pois como já disse: crianças são imprevisíveis e basta apenas um descuido para que uma tragédia aconteça.

Mas, infelizmente, acredito que sou minoria.

Quem comanda o país atualmente pensa completamente o contrário.

Acha que o acesso a armas deve ser flexibilizado e facilitado.

O cidadão de bem tem o direito de se defender.

Basta apenas fazer algumas aulas de tiro, um exame psicológico (veja quantos policiais provados nesse exame e que matam esposas, namoradas e filhos em brigas dentro de casa, de trânsito ou em outras situações) e dizer – sem precisar comprovar – que sua arma ficará em um cofre dentro de casa.

Coloque mais armas em circulação em um país cujo número de suicídios de adolescentes cresce a cada ano.

Coloque mais armas em circulação em um país cujo tiroteios em escola era algo apenas de filmes e notícias de outros países e já teve o segundo em menos de um ano.

Coloque mais armas em circulação em um país onde pessoas que se sentem ameaçadas em uma discussão de trânsito possam atirar a esmo.

Coloque mais armas em circulação em um país onde quase 40% da população é considerada analfabeta funcional – ou seja, sabe ler e escrever porém não consegue interpretar aquilo que está lendo (leis, regulamentações, notícias falsas e livros de história).

Coloque mais armas em circulação em um país que tem a polícia que mais mata no mundo, confundindo guarda-chuva, furadeira e muleta com fuzil e atirando sem questionar.

Coloque mais armas em circulação em um país com enorme desigualdade social e se preocupe apenas com aqueles que teriam condição de ter uma arma, aumentando e mantendo assim a casta de privilégios.

Vai dar certo sim, tá ok?

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