Um tira da pesada 3 1/2

Hoje foi um dia estranho. Pelo menos na parte da manhã.

Acordei e fui cortar meu cabelo. A juba tava grande, precisando dar um tapa. Fui tranquilamente em direção ao “salão de beleza” e aguardei a minha vez.
Ser o único homem do recinto é um inferno. Você tem que escutar as madames conversando sobre assuntos em que não se tem o mínimo de interesse e concordar com um “ahn ham” sempre que te perguntam alguma coisa.

Enquanto lia uma Veja antiga, olhei para a rua e vi minha vizinha e um cara. O cara itava  indo pra cima dela. Sabe quando você brinca de “vô te pegar”? Tava parecendo isso até o cara fazer de novo, pegar o celular dela, subir na bicicleta calmamente e começar a pedalar.

Assalto rapá. Chamem os tiras. Em plena luz do dia.

Nessa hora não raciocinei direito, subi a rua correndo e perguntei se o cara realmente a tinha assaltado. Ela disse que sim. Na hora eu liguei para o meu pai e desci a rua correndo. Meu pai é um “tira de verdade”. Mas a adrenalina tava tão alta na hora que me senti o próprio Axel Foley de Um Tira da Pesada. Só faltou a jaquetinha e a música.

Comecei a correr atrás do maluco de bicicleta e no meio do caminho encontrei com o meu pai que já tava devidamente armado, estilo lock n’ load. Descemos a rua correndo e nenhum, repito, NENHUM puto ajudou a gente. Odeio populares. Só servem para atrapalhar o serviço de “tiras” como eu. ¬¬’

O cara tinha entrado num matagal que tem no final da minha rua e enquanto meu pai entrava armado, eu continuei subindo e fui para a parte de cima, que teria uma visão melhor da área. Daria cobertura para o Capitão Nascimento do bairro. Não vai subir ninguém, era o que eu diria se de repente algum vizinho putinho se prontificasse a ajudar.

O cara num passe de mágica desapareceu. Puf! E quando vi, meu pai também já tinha sumido atrás dele no matagal. Aí nessa hora que eu finalmente parei e racionei para ver a merda em que eu tava me metendo. No meio da favela, sozinho, com minha cara de menino criado com vó e totalmente desprotegido e desarmado. Se eu encontrasse com o cara, com certeza ele me assaltaria e sairia rindo da minha cara. A brincadeira de polícia e ladrão acabou ali.

Aí não deu, voltei para trás e fui cortar meu cabelo. Minha curta e emocionante aventura como policial. Finalmente os policiais de verdade chegaram e foram atrás.

O filho da puta do assaltante escapou.

Cara, é impressionante como hoje em dia não se pode dar mole em nenhum lugar. Não era nem 11:30 da manhã. O cara ao invés de tomar café da manhã, tava praticando um assalto. O café da manhã dos campeões. A violência se tornou uma coisa banal. Acontece a toda hora, mas quando acontece com a gente, que não é acostumado a viver com isso, não sabe como agir. Eu esperava o que correndo atrás de um assaltante armado? A minha única arma era um chinelo Raider e um molho de chaves. O que eu poderia fazer? Dar uma chinelada e uma chavada na cara? Se pegasse o cara, com certeza daria, mas estaria sendo burro. Estaria colocando um alvo no meio da minha testa esperando tomar um tiro.

Mas serviu pela experiência. Pelo menos agora posso contar como é a sensação de participar de uma perseguição policial.

=)

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