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Ensaio sobre a diarréia

Ela chega sem avisar, quando você menos espera. Em alguns casos ela manda um pequeno aviso antes como uma dor na regial abdominal. Mas, o pior tipo de diarréia é aquela que, sem ao menos te enviar um sinal cerebral, preenche o espaço entre a sua cueca e o seu ânus, de forma constrangedora. Essa situação se complica ainda mais quando estamos em um ambiente público, repleto de pessoas que, sim, vão rir se você se cagar.

Mas, uma das coisas que constitui o pior da diarréia é quando ela justamente avisa que está chegando e você, como um fugitivo em busca de um abrigo, procura um banheiro desesperadamente. Geralmente quando isso aconte estamos no meio da rua ou dentro do ônibus, o que potencializa toda a situação e o risco de fracasso. Você segura com todas as suas forças, de forma que as suas humildes preguinhas não desistam de segurar o jato fecal formado em suas entranhas. Nessa hora, soltar um peidinho é tão arriscado quanto colocar um gordinho hipeartivo tomando conta de uma central de lançamento de mísseis nucleares.

O processo de uma diarréia envolve toda uma tortura psicológica. Você anda mais devagar, com as pernas bem juntinhas com o único objetivo de lacrar toda e qualquer fresta anal que permita a saída involuntária daquela coxinha de catupiry que você comeu na cantina da Firmina. Antes fosse só a coxinha, mas ela insiste em vir acompanhada de outros alimentos digeridos e o principal e mais alarmante: ela vem em forma líquida.

Posso dizer que borrar as calças não é vergonha alguma desde que você esteja sozinho. Completamente sozinho. Eu mesmo já borrei várias vezes. Inclusive depois de velho, pois, como disse, a diarréia é sorrateira. Ela não avisa e um simples pode se tornar uma tragédia. Mas, não existe nada pior do que a iminente possibilidade de uma diarréia quando você está com a namorada.

Domingo passei por um sufoco que não desejaria ao meu pior inimigo. Depois de muito churrasco, coca-cola e patê de atum, toda a comida ingerida e digerida, resolveu se rebelar e de uma hora pra outra veio o sinal. Porém, a contagem regressiva estava em T-5 minutos.

Se eu estivesse em um território amigo, como a minha casa, tudo bem. Eu sei das qualidades do meu banheiro. A principal delas: a porta fecha. E no local onde a gente estava, a porta simplesmente não fechava.  E no quarto estavam a minha mãe e a minha namorada. Havia um impasse: eu precisava cagar e não queria que a minha namorada ficasse por lá, afinal, era uma maldita diarréia. E uma diarréia nunca cheira a leite de rosas.

Não dava pra perder tempo então eu fui o mais sincero possível com as duas:

- Eu preciso usar o banheiro. Por favor, saiam do quarto.

Eu disse desejando com todas as forças do mundo que meu orificio anal aguentasse a pressão do que estava por vir. Dependo da resposta, eu teria que me segurar por mais alguns minutos. Foi inevitável.

- Ah amor, eu quero ficar aqui.

Sim, por mais que a gente ame e idolatre a namorada, em uma situação de emergência como essa, esse é o tipo de resposta que a gente simplesmente não deseja ouvir. Nunca.

- Não, não vai. Vai lá pra fora com a minha mãe vai. Por favor.

Posso dizer que ao pronunciar o “Por Favor”, por um instante senti algo semelhante a um pedaço de picanha implorando pra sair. Lembra do Ace Ventura quando sai de dentro do rinoceronte? Toda a sorte de comida consumida na festa estava daquele jeito, forçando uma saída.

Com muito esforço.. tá bom, eu praticamente implorei pras duas saírem do quarto, eu finalmente tranquei a porta (por precaução) e fechei as janelas (não queria compartilhar o odor fétido e despertar a suspeita de um corpo em decomposção no local) e fui para o banheiro.

Essa é a situação que nos faz refletir sobre quão importante é o banheiro da nossa casa. Nós temos a certeza de que ele vai estar sempre limpinho, não importa a hora ou a ocasião e que ele também terá um assento confortável, praticamente com o formato certinho da nossa bunda. Mas naquele sítio não. Não havia assento.

Utilizei a datada, porém útil, estratégia de colocar o papel higiênico na borda do vaso. Quatro tirinhas arrancadas a esmo, afinal, eu não podia perder tempo. Me borrar era questão de segundos. Coloquei de forma a cobrir toda a área de porcelana evitando o mínimo contato entre o vaso e a minha pele. Não sei quem sentou por ali e era melhor não arriscar.

Foi a conta de sentar e a massa fecal deu o ar da graça. Um ar não muito agradável, diga-se de passagem. Mas eu estava sentado em um vaso. Dos males, o menor. E por ali fiquei. Diria que por uns 10 longos minutos, meditando e despejando tudo o que havia comido naquele dia.

Ao final do trabalho, realizei todo o procedimento de limpeza, mas não tinha lixeira, logo, tive que jogar o papel no vaso. Dei a descarga e para a minha surpresa, a força dela era equivalente a uma cuspida minha. Ou seja, eu poderia ficar o dia todo dando descarga e ainda sim não me despediria do conteúdo fétido ali depositado. Dei duas, três descargas e desisti. Fui embora mas deixei uma lembrança não muito agradável no banheiro daquele sítio.

Como é do seu feitio, a diarréia veio em um momento completamente inoportuno. Em uma das piores situações possíveis: com a namorada por perto. Mas, felizmente, ela deu um pequeno aviso, tempo suficiente para preparar o terreno e colocar o Robinho pra nadar. Pena que ele boiou.

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