27 December 2008 ~ 8 Comments

Suicidio…

Hoje fui ao cinema com a minha namorada assistir o novo filme do Will Smith, Sete Vidas. O filme mostra a história de Ben Thomas, um fiscal da Receita Federal americana que escolhe 7 pessoas merecedoras de sua ajuda e o filme mostra como Ben avalia essas pessoas, de acordo com seus critérios pessoais. O filme é bem mais profundo que isso e a história não se trata de livrar a cara do leão, e sim de um tema bem mais profundo que isso. Vocês já devem imaginar qual e não vou entrar em detalhes aqui para não estragar surpresas do filme. Mas vou falar um pouco sobre uma experiência que tive com um amigo que tentou o suicídio e como isso me afetou.

Entre 2003 e 2004 eu estava cursando respectivamente o 2º e o 3º ano do ensino médio. A minha sala foi a mesma nos dois anos, o que criou uma união tremenda entre os alunos. Nunca houve uma briga entre a gente. Mas, vale lembrar que assim como eu, muitos ali estudavam no colégio desde a 1ª série, ou seja, muitos já se conheciam desde 1994. O Diego era um desses caras. Conheci o Diego em 1995, quando eu estava na 2ª série e o conheci da pior maneira possível, perdendo uma namorada pra ele.

Mas isso foi no passado. O que importa é que o Diego era um dos caras mais engraçados da sala. Junto comigo e uma outra galerinha que desenvolveu a fina arte dos trocadilhos, compunha a santíssima trindade humorística da nossa sala. E como éramos afiados. Eu era MUITO mais engraçado naquela época do que atualmente. Sem contar também que o cara era inteligente e sempre salvava a galera emprestando os exercícios antes da correção ou então sentando perto na hora da prova. Sim, não era uma sala, mas era uma unidade. TODO mundo se ajudava. Seja na hora da prova ou na hora de um exercício, ou até mesmo dando apoio, como foi o caso quando a minha avó morreu.

E assim foi, até nos formarmos em Dezembro de 2004. Alguns eu perdi o contato, mesmo ainda possuindo o contato no Orkut, e outros mantive o contato frequente. O Diego foi um dos que, infelizmente, não mantive um contato frequente.

O tempo foi passando e em 2005 um dos meus amigos que era da sala e que eu tinha contato, me disse que o Diego havia tentado o suicídio e felizmente não tinha sido bem sucedido pois o encontraram a tempo. Mas isso me abalou de uma forma sinistra. Até esse dia eu não tinha vivenciado ou tido contato com ninguém que tivesse tentado suicídio. Por ser uma pessoa com a qual convivi por 10 anos da minha vida, foi realmente um baque.

Tentei entrar em contato mas ninguém tinha o telefone do Diego e acabou que não consegui falar com ele. Mas ainda em 2005, enquanto fazia estágio no Hospital Militar (eu também estudava no colégio da Polícia de MG), me pediram para levar um prontuário de um paciente na área de psiquiatria e, para a minha surpresa, o paciente era o Diego. Na hora eu fui lá.

Cheguei lá e tive um choque de realidade. O cara que antes era um dos mais extrovertidos e engraçados da sala, agora era um rapaz calado, triste e com a fisionomia de uma pessoa que realmente estava sofrendo. A primeira coisa que fiz foi comprimentar e dar um abraço no Diego. Um abraço do tipo “Putz cara, não apronta outra dessa nunca mais com a gente”. E parece que ele percebeu o que isso queria dizer e me perguntou se eu fiquei sabendo. Não menti e disse que sim.

O cara se abriu comigo e contou que anos antes a irmã havia suicidado e como ele era extremamente ligado à essa irmã, ele não estava mais suportando. Foi uma situação sem explicação, principalmente no momento em que ele contou que uma voz ficava dizendo para ele se matar, que ele não valia nada e que apenas atrapalhava a vida das pessoas ao redor dele. E, cansado de escutar essa “voz”, ele resolveu dar um basta e engoliu uma quantidade razoável do famoso veneno “chumbinho”, para combater ratos.

O pai dele o encontrou poucos minutos depois dele ingerir e foi o tempo suficiente para levá-lo ao hospital e realizar uma lavagem estomacal. O cara disse que o fato de não conseguir se matar foi mais frustrante do que escutar a voz, pois isso só o mostrou o quanto fracassado ele era. E nossa, como isso me afetou.

Eu parei pra pensar em como a vida pode ser traiçoeira com as pessoas. Passei 10 anos vendo esse cara de segunda a sexta, sempre sorrindo, fazendo piada e de uma hora pra outra, o cara que era alegre, resolve se matar. Eu pensei que isso poderia ser com qualquer um, inclusive comigo. Foi uma época em que passei por uma crise de identidade sinistra que só foi terminar em Fevereiro de 2006. Eu me perguntava se estava realmente vivendo o que eu poderia viver e se isso estava valendo a pena. Ao mesmo tempo, foi a época em que mais tive medo de morrer e perceber tudo o que eu deixaria pra trás.

Mas eu superei. E o Diego também. Ano passado o cara estava na festa junina do Colégio. Festa que a galera geralmente se encontra pra matar a saudade e lembrar das histórias da sala. E como foi bom ver o cara bem de saúde e alegre novamente. Me senti orgulhoso pelo cara e feliz também.

Não sei se uma pessoa que tenta o suicídio fica com isso em mente, se tende a tentar novamente. Espero que não, pois acredito que todos nós devemos ter a oportunidade de viver a vida plenamente. Não deve ser interrompida dessa maneira.

Foi difícil lidar com essa situação, por mais que não seja uma pessoa da minha família, foi um amigo próximo e cara, foi difícil. A morte é sempre difícil, mas parece que o suicídio, só de falar esse nome, já dá uma sensação estranha na gente. E vendo Sete Vidas hoje lembrei disso.

Enfim, é difícil saber o que se passa na cabeça de qualquer pessoa, mas o que eu posso dizer é que não custa nada viver enquanto você pode. Se uma voz na sua cabeça diz que você não vale nada, apenas lembre tudo e todos que você deixará pra trás. Isso deve valer alguma coisa e você, com certeza, vale alguma coisa pra essas pessoas.

8 Respostas to “Suicidio…”

  1. Nath_ 27 December 2008 at 11:58 Permalink

    Nossa cara, bem profundo o texto… Mas infelizmente a realidade do seu amigo é a realidade de muitas milhões também. Realmente não sabemos o que se passa na cabeça de uma pessoa pra tentar o suicídio, mas acho que o que importa é que temos que apoiar e fazer com que entenda que essa não é a melhor saída.

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  2. Cleiton 27 December 2008 at 16:13 Permalink

    Na minha mais sincera opiniao, suicidio é covardia, é uma tentativa de fugir dos problemas…
    Ainda bem que o cara se tocou e hoje ainda está vivo.. e tomara que nao tente novamente..

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  3. Mateus Vero 28 December 2008 at 08:02 Permalink

    Assistir o NÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁOOOOOOOOOOOOOOOO…

    Nesse sentido, é um verbo transitivo indireto. Rs. Foi mal, não costumo fazer isso, é que sou fã da regência desse verbo. Do jeito que tá escrito, você e sua namorada foram ajudar o novo filme do Will Smith, não ver…

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  4. Mateus Vero 28 December 2008 at 08:07 Permalink

    Agora eu li, bem escrito.

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  5. Mateus Vero 28 December 2008 at 08:07 Permalink

    Tipo, li o resto.

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  6. Mateus Vero 28 December 2008 at 08:08 Permalink

    Quero dizer, a 99% do texto tá bem legal.

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  7. Mari 29 December 2008 at 10:32 Permalink

    que coisa…
    o que mais me impressionou na história toda do seu amigo, foi a coincidência. essa coisa de vc encontrá-lo no seu estágio… e tê-lo ajudado.
    que bom que ele se recuperou.

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  8. Spooky 30 December 2008 at 09:57 Permalink

    Pensar no que deixa pra trás ou no que vc tem nao vale de nada.
    Vale viver uma vida miserável,onde se passa uma humilhação,uma frustração todos os dias e o pior: ao lado de sua casa?

    Nem tudo é belo quanto parece…nem tudo tem um fim bom ou algo que mude…
    nada valhe realmente a pena para que se possa viver de uma forma imbecil onde outros tem valor e vc é apenas um coadjuvante

    te digo que isso vai acabar,e de uma forma bem rápida…

    e se houve uma falha,isso vai voltar a acontecer,a pessoa pensa em fazer isso de novo?

    sim,pensa e nada melhor que o erro da primeira vez para se fazer direito na segunda.

    acredite.

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