Sono pesado


Eu nunca fui um santinho em sala de aula, muito menos um dos mais levados. Eu era aquele cara mediano, conversava com todos, o tempo inteiro, mas não fazia muitas merdas na escola. Em compensação, sempre que chegava o boletim, era aquela tristeza, decepção e medo. Medo de mostrar pro meu pai, e pior, medo chamarem ele para ir buscar o boletim na escola.

Em meados de 2001, eu, um adolescentezinho de 15 anos, mestre na arte da conversa em sala de aula e um completo idiota na matéria de matemática, peguei recuperação.

Na sala de aula, a supervisora e os professores, e isso só significa uma coisa: fodeu!

Fodeu para a turma inteira, fodeu para alguns, fodeu para um, tanto faz, fodeu de todo jeito e naquele dia, algo me dizia que eu seria “fodido“. Sabe quando você sente que você vai se dar mal? Então, eu estava com essa sensação.

Boca seca, estômago embrulhando, perna tremendo e lá na frente a supervisora solta:

“Os alunos que eu falar o nome, venham aqui pegar um recado para os pais, assinar que recebeu e avisar da reunião para entrega de boletins.”

Eu sabia que estava na lista, os anos de conversa, de bagunça no fundão, finalmente tiveram um final trágico, meu pai teria que ir na reunião, e isso significava uma coisa:

Fodeu! Vou apanhar demais.

Finalmente a supervisora falou o meu nome, a sentença de morte fora assinada, e eu ali, um pobre garoto prestes a ser esfolado vivo. Cheguei em casa e dei o recado para minha mãe, afinal, na hora da dificuldade, quando a coisa fica preta, temos que apelar para a mamãe ? Afinal, o instinto materno fala mais alto nessa hora.

Ela não fez nada comigo, só disse que eu precisava melhorar e tal, aquela coisa de mãe, mas disse que meu pai queria ir na reunião. Pronto, era inevitável, eu ia sobrar igual jiló na janta.

Chegado o grande dia da reunião, dia da execução, fui para a aula normalmente de escolar, a reunião era mais tarde, e meu pai e minha mãe se preparavam para ir.

Na moral, foi o pior dia da minha vida escolar. Não conseguia prestar atenção em nada, tudo doía de nervosismo. Barriga, cabeça, pernas, braços, tudo. Na hora do recreio tentei dar uma sondada no auditório, onde estava rolando a reunião, mas em vão, não vi meus pais. Não deu para avaliar a situação. O tempo estava correndo, o perigo de morte era iminente.

Pontualmente às 11:30 o sinal bateu. Era a hora da verdade, encontrar com meus pais, saber o que aconteceu e finalmente ser executado, ali em praça pública, em frente aos meus amigos, das gatinhas, dos professores. Ou seja, passar vergonha.

Ao longe avisto meus pais, minha mãe com cara de “que decepção” e meu pai com cara de “É hoje!”.

Eles vão se aproximando, cada vez mais, meu coração começa a bater mais forte, começo a suar frio, a boca seca, até que eles chegam.

Pergunto como quem não quer nada como foi a reunião, e meu pai com a pior cara do mundo fala:

- Em casa a gente conversa.

Pronto, sabia que daquele dia eu não passava.

Logo depois minha mãe fala:

- Nós vamos no centro resolver uns negócios, você quer ir com a gente?

Naquela hora eu senti que ainda tinha uma pontinha de esperança viva dentro de mim. Se eu não ia com eles, eu iria de escolar para casa, chegaria mais cedo e podia pensar em alguma coisa.
E foi o que fiz.

- Quero ir não mãe, vou de escolar mesmo. To com fome.
- Você que sabe.

E foram embora.

Cheguei em casa e eles ainda não tinham chegado, para minha enorme sorte.

Almocei e durante o almoço, senti que aconteceu igual aqueles desenhos, uma lâmpada apareceu sobre a minha cabeça e a ideia surgiu. Pensei comigo mesmo: Vou fingir que estou dormindo, afinal, meu pai saía para trabalhar às 17:30. E fui eu em direção ao meu quarto.

Deitei, dei uma dormida e acordei com alguém abrindo a porta. Pensei na hora: Pronto, vou apanhar dormindo mesmo. Mas não, a porta fechou do jeito que abriu e eu só ouvi um “Tá dormindo” ao fundo. Achei que tinha vencido a guerra, mas não, quando olhei no relógio ainda não era nem 13:20, e eu não conseguia mais dormir.

Nesse dia um pouco da arte da interpretação tomou conta do meu ser, e não sei como até hoje, fiquei deitado na cama, inerte, fingindo que dormia de 13:20 até as 17:30. Meu pai entrou no quarto inúmeras vezes, e eu ali, olhos fechados, sem dar aquelas palpitadas normais de quem finge que está dormindo. Dava uma viradinha estratégica para um lado, para o outro, coçava alguma coisa e com o radarzinho atento, a cada movimento do meu pai.

O tarde longa essa, mas finalmente deu 17:30 e ele saiu. Como que num passe de mágica, a Bela Adormecida aqui acordou logo após ele sair, se sentindo “O esperto”, e foi assistir televisão. Minha mãe entrou no quarto e disse que estava na cara que eu estava fingindo, mas que de todo jeito, meu pai ia conversar comigo amanhã. Mas só ia conversar mesmo.

Acho que a interpretação não foi tão convincente quanto imaginei, mas pelo menos consegui adiar a conversa.

Acabou que no outro dia nem foi tão perigoso assim, só disse para deixar de malandragem, estudar mais, conversar menos. E hoje estou aqui, vivo, relatando isso a vocês!

Fui!

Nenhuma resposta para “Sono pesado”

  • caio arroyo:

    Bom so tomava bronca dos meus pais ate a 4 serie dai em diante foi td blz, mas mesmo assim é um saco falar essas coisas para os pais

    Responder

  • Lya Flamel:

    Meu, que texto grande! Antes eu tinha medo de receber bronca pelo motivo das minhas notas ficarem abaixo de 7, o meu namoro, mas agora tá sussi.

    E onde vc mora que eu nunca ouvi falar nesse esparro?

    Responder

  • .laranja:

    a gente sempre acha que engana, mas papai e mamae sempre sabem!

    e hm.. texto grande, néum?

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  • Fabiane Colling:

    noossaaa
    o layout mudou e eu nem sabia!! 0o
    como eu estou relaxada!! =//
    pq mudou?/ eu gostava dakele
    mas gosteiu deste!! ^^

    bjão

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  • mel:

    AHAHAHAHAHA!!!!!! A-DO-REI!!!!
    Lembrâncias da Infança também???? ahahahahahahahaah!!!! Superadoro!!!
    e fingir que tá dormindo a tarde inteira é dose, ahahhaahaha!!!!! cara de pau demais!!!!!

    Responder

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