Resenha do novo CD do ForFun – Polisenso

22/11/2008 at 13:22

Do ano de 2004 pra cá, o cenário do rock no Brasil foi tomado pela onda de novas bandas compostas por nomes como NX Zero, ForFun, Fresno, Hateen e mais recentemente Strike. Foi o famoso boom do Emocore, o que, convenhamos, é o termo mais incorreto que se pode aplicar à essas bandas. NX Zero e Fresno podem se enquadrar nesse quesito, como bem afirmam em alguns casos, mas, das demais, o Hateen sempre manteve a linha do Hard Core melódico e ForFun, o bom e velho Hard Core californiano.

Das bandas acima, a que eu sempre preferi foi, obviamente, o ForFun. Sempre me identifiquei mais com o estilo da banda. As músicas descompromissadas, as letras divertidas e o hardcore alegre, que promove sempre as melhores rodinhas na hora do show. Sem contar que conheci os caras pessoalmente e afirmo, são uma das pessoas mais humildes com quem já conversei. Os caras tem um pensamento totalmente diferente das demais. Pensam no coletivo, na sustentabilidade do planeta e em como promover a paz de espírito e a união com o próximo.

O novo CD da banda reflete esse pensamento em todos os sentidos. Seja nas letras ou nas levadas de Dub com um toque de eletrônico e samplers. A banda alcança com esse novo cd, Polisenso, maturidade musical e espiritual. O que mais se observa no CD é a preocupação da banda em demonstrar a sua filosofia de vida. A preservação da natureza, o consumismo desenfreado, o egoismo do ser humano com o próximo.

O CD é completamente diferente dos dois outros álbuns da banda, Das Pistas de Skate para as Pistas de Dança (2002) e Teoria Dinâmica Gastativa (2005). Sai de cena as letras com tom adolescente e entram as letras com temas atuais. A levada também é completamente diferente. Sai o hardcore e entra o Dub, algumas pegadas de reggae acompanhadas de samplers e toques eletrônicos.

O CD começa com uma faixa alegre, mas que dá o tom do que vem pela frente. A música Aí Sim começa com um reggaezinho com uma linha linda de baixo. Em seguida vem O Viajante, uma das melhores do CD ao lado de Dia do Alívio, Eremita Moderno e Sigo o Som. Em o O Viajante a banda inova mais uma vez e se diferencia das demais ao utilizar um coral de crianças.

Logo depois somos brindados com Infinitas Possibilidades que fazer uma ode a natureza e a incapacidade do ser humano de conviver em harmonia com essa natureza. Vale lembrar que nesse CD, ao contrário dos demais, a banda utiliza apenas uma guitarra. Danilo se encarrega dos vocais e da guitarra, enquanto Vítor (Pirú) cria excelentes efeitos sintetizados e alguns mixes no meio das músicas.

Na seqüência temos o primeiro single desse cd, a música Sol ou Chuva. Me lembro na época do lançamento que foi um choque para os fãs. Muitos diziam que aquele não era o ForFun que todos conheciam, e da parte de uns, esse pensamento se confirmou com o lançamento do CD. Mas eu não penso assim. A música inclusive tem um dos clipes mais bonitos que já vi em se tratando de bandas nacionais.

A música Panorama, cantada por Vítor, aliás, quase declamada, é um tapa na cara da sociedade. Acusando a modernidade e a mecanização da sociedade em uma letra repleta de referências e frases marcantes, com samplers de discursos, se não me engano, de Martin LutherKing Jr.

A sexta faixa é, na minha opinião, a melhor do disco. É a música com uma pegada mais pop que as demais e trata sobre o “dia do alívio”, título da faixa. Sobre um dia em que a sociedade encontrará o pleno conhecimento e terá um dia do alívio. O refrão gruda na mente de imediato, e dá vontade de escutar a música incansavelmente.

Colírio é um instrumental belíssimo. Com efeitos sonoros, uma pegada leve de guitarra e uma linha de baixo matadora. Abusando das escalas e mostra uma evolução absurda do baixista Rodrigo.

Suave, como o próprio nome diz, é uma faixa mais suave, tranquila, e que de repente lança uma pancada com a letra. Uma música que dá vontade de ir pra praia com os amigos e ficar sentado o dia todo conversando.

Gruvi Quântico já é conhecida do público, pois fez parte do repertório da banda no CD/DVD MTV 5 Bandas de Rock e já é presença garantida nos shows desde o ano passado. A versão veio revigorada, ficando melhor do que a versão lançada anteriormente pela banda. É, como Infinitas Possibilidades, uma ode à natureza e as ações do ser humano contra esse bem precioso.

Cósmica nos lembra bandas como 311, com uma pegada mais tranquila. Uma letra cantada de forma suave e a utilização de sintetizadores ao fundo. Sem dúvida alguma, se fosse cantada em inglês poderia se dizer que é uma música do 311. Lembra bastante a música Amber.

Eremita Moderno, como já citado acima, é uma das melhores músicas do CD. Um groove gostoso de se escutar, com uma letra de protesto e exaltante. Lembra músicas dos anos 70 e também tem um refrão forte e marcante.

Escala Latina me faz querer ir pra Cancun. Como o próprio nome, a música tem uma levada bem latina, com castanholas e uma guitarra que lembra a salsa. A música fala sobre a exploração latina pelos outros países, mais uma vez refletindo o pensamento da banda em relação a assuntos sérios.

Uma Noite em Havana é mais um instrumental da banda com uma cara bem cubana mesmo. Dá vontade ser integrante do Buena Vista Social Club escutando essa música.

Sigo o Som é outra velha conhecida do público da banda. Mais uma vez com uma nova cara, o que deixou o que já era bom, ainda melhor. É uma das músicas mais pesadas do novo CD. Uma das músicas com cara do ForFun de 3 anos atrás, apesar do tom político da letra.

Sócrates e a Deusa Música é uma música mais pesada. Instrumentalmente falando, já que a letra é um pouco mais leve. Com um tom filosófico, a música utiliza a famosa expressão de Sócrates “Só sei que nada sei” como ponto de partida.

Cigarras tem uma levada bem praiana. Um dub com um toque eletrônico o que lembra algumas músicas do início dos anos 90.

O CD ainda vem acompanhado de 3 faixas bônus. São os remixes das músicas Dia do Alívio, O Viajante e Suave. Dia do Alívio no remix virou um reggae da melhor qualidade, com um baixo sensacional. O Viajante ganhou um toque eletrônico e Suave virou um set eletrônico, que poderia muito bem ser tocado em uma rave.

Finalizando, esse CD marca um ponto de divisão na carreira do ForFun. A banda mostra que evoluiu tanto musicalmente quando espiritualmente e apresenta um cd cheio de conceitos. Uma obra autoral diferente de tudo que foi lançado esse ano em relação as outras bandas de rock. Em meio a lançamentos como Black Ice do AC/DC, Polisenso, o novo CD do ForFun se torna a melhor pedida em questão de rock nacional.

Uma ressalva. A banda lançou o cd exclusivamente na internet, em seu site oficial, e em breve irá lançar o cd físico. Mas, ao baixar, o pacote vem com o encarte e a capa do CD. A banda seguiu a tendência de grandes bandas gringas e deu a oportunidade das pessoas apreciarem a obra antes do lançamento físico. Ponto pra eles.

Para baixar o CD é só clicar aqui.