Questão de ponto de vista

03/10/2008 at 01:07

Esse é um relato em primeira pessoa de uma garota comum, como qualquer outra.

As garotas da minha idade são garotas normais. Acordam com mau-hálito, mijam, dão um peidinho, escovam os dentes, tomam banho, trocam de roupa e vão trabalhar. Algumas têm carro, outras vão de ônibus e algumas até vão a pé, quando a distância não é grande. Garotas normais como qualquer outra.

As garotas da minha idade vão para baladinhas, micaretas, shows, faculdade, viagens com amigos, enfim, se divertem. Ah, essas viagens, essas baladinhas, essas micaretas, esses shows e essas faculdades. Tem cada rapaz ali que, meu Deus, fico até sem palavras. Também existem os feios, mas com um bom whisky, ficam até simpáticos. Claro, nenhum deles chega aos pés do Rafael Barbosa, mas eles tentam.

As garotas da minha idade conhecem e conversam com rapazes. Isso é natural do ser humano. Toda garota comum conversa com rapazes, interage, troca telefones, abraços, apertos de mão e carinhos. Algumas vezes essa interação vai além, mas já já explico.

Algumas garotas pregam o “agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”, e saem fazendo a limpa nas baladinhas, boates, shows, micaretas e viagens. Pegam todos e fazem de tudo. São garotas normais que têm necessidade de suprir os seus desejos e impulsos sexuais. Tudo bem, também faz parte do ser humano.

Essas garotas, que fazem tudo isso, entre quatro paredes com os seus rapazes, também fazem de tudo. Gostam que puxe o cabelo, gostam de tapa na bunda, gostam de chupão, gostam de chupar, gostam de ficar por cima, gostam de ficar de quatro, gostam de xingar e serem xingadas e por incrível que pareça, fazem tudo isso sem pedir nada em troca. Nem o telefone do cara, ás vezes. Só por pura diversão.

Agora quando eu faço isso, eu sou uma puta. E sou vista com outros olhos por essas mesmas garotas. Eu também curto baladinhas, eu também curto boates, eu também curto shows, eu também curto micaretas e eu também curto viagem com os amigos. Eu sou solteira e ninguém vai me segurar, sim. Mas enquanto as garotas fazem isso com o dinheiro que o papai dá de mesada, eu faço isso com o dinheiro que eu ganho no meu trabalho. Não sabe qual é o meu trabalho? Eu explico.

Meu trabalho é chupar, ser chupada, dar de quatro, dar de lado, dar por cima e dar por baixo. Meu trabalho é gostar que puxem o meu cabelo, que me dêem tapa, que me dêem mordidinhas, que me xinguem e que me peçam pra xingar. O meu trabalho é fazer tudo isso que as garotas normais da minha idade fazem. Meu trabalho é ser garota de programa.

A sua filha faz isso tudo. Mas ela é santinha. Eu faço isso e sou prostituta. Essa é a minha profissão.

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Tema “A Prostituição pelo ponto de vista da prostituta”.
Sugestão do Super Wallace: Snes-Classics/SuperWallace.