Pedido

Querido Papai Noel,
O ano está acabando e com ele mais um natal sem presentes. Será que não fui um bom garoto? Trabalhei todos os dias desse ano. Saía de casa às 6h da manhã e voltava as 22h. Nem sempre com o dinheiro necessário para sustentar minha mãe e meus quatro irmãos.
Quando podia, lia algumas coisas, já que não tenho tempo para estudar. Não tenho tempo e nem dinheiro, já que a escola mais próxima que poderia me matricular fica do outro lado da cidade. Estudar em uma escola particular nem pensar. Ou estudo ou minha família morre de fome. Estudo não enche barriga, ao contrário do dinheiro que tento conseguir todos os dias.
Será que deixei de cumprir alguma obrigação? Será que não vou ganhar presentes por não almoçar direito? Não é sempre que temos alguma coisa em casa para comer. Como sou mais velho, deixo o pouco que tem para os meus irmãos, mas mesmo assim, nem eles ganham nada no natal.
Será que nossas cartas não chegam até o Polo Norte? Acho que os selos que podemos comprar não são suficiente para uma carta que pretende chegar tão longe.
Ás vezes acho que o Senhor realmente não existe. Muitos dizem isso, mas não acredito. Não acredito porquê sempre vejo crianças com presentes no dia de Natal.
Pode ser que o senhor não receba minha carta, ou tenha medo de subir onde eu moro. Muitas pessoas tem medo. Têm que pedir autorização pra quem toma conta daqui. Quem toma conta de onde eu moro, são pessoas do “movimento”. Acho que elas não acreditam no senhor, mas isso não impede que eu acredite.
Escrevo essa carta tendo a esperança de todos os anos. A esperança de que o senhor vai recebê-la e na véspera do Natal, quando der meia-noite, o senhor vai chegar no seu trenó e deixar os nossos presentes na porta de casa. Na porta, não temos chaminé. Mas acho que o senhor não importa não é mesmo? Isso não é muito comum no meu país.
O que eu mais quero nesse Natal é que eu não dependa do meu trabalho. Eu gosto do meu trabalho. Mas gosto de ler, de escrever. Gosto de estudar e saber o que acontece no mundo. Gosto de fazer cálculos quando preciso e gosto de saber a história do meu país. Gosto de saber porquê falam tanto nesse tal de aquecimento global. Gosto, mas não consigo entender. Não consigo porquê não estudo. Eu quero estudar. Quero orgulhar minha mãe. Quero fazer algo que ela possa lembrar e se orgulhar. Quero que meus irmãos saibam que eu faço o melhor por eles.
Eu sei que isso pode não ser nada perto de milhares de video-games, computadores, bicicletas, bonecas e carrinhos que o senhor recebe como pedido todos os anos. As vezes um pedido assim pode passar despercebido. Ou pode ser que seus elfos ainda não saibam como construir escolas ou escrever livros. Eles devem ser como eu. Só devem saber construir brinquedos, da mesma forma que só sei vender balas no mesmo sinal. Faço isso desde que me tornei gente. Gostaria de fazer outra coisa. Não que eu não goste do que faço, apenas queria fazer coisas novas e que as pessoas não me ignorassem.
Alguns acham que sou bandido, Papai Noel. Quando olham pra mim fecham as janelas dos carros. Não entendem que eu estou alí só para vender balas. Acham que estou alí para disparar balas. Eu não quero ser visto assim. Quero ser visto como o senhor, que todos abrem a porta para receber. Sempre com um sorriso no rosto, um copo de leite e biscoitos. Será demais pedir isso?
Vou encerrando minha carta por aqui. O senhor deve estar cheio de pedidos para atender. Sei que é difícil para o senhor, mas sei também que não deixa nenhuma criança na mão. Se deixa não é por mal, tenho certeza. Sei que o senhor não deve receber minhas cartas. Só pode ser essa, a única explicação para eu não ganhar nada. Mas eu não fico chateado com o senhor. Sei por experiência própria. É a mesma coisa quando chega o final do mês e o dinheiro que consegui não dá pra pagar as contas e comprar comida para todo mundo aqui em casa. Ninguém fica decepcionado comigo. Sabem que não foi minha culpa. Foi apenas um mês apertado, mas mesmo assim continuam acreditando em mim. Como eu acredito no senhor. Sei que existe, e quando tiver a oportunidade de ler a minha carta, vai atender ao meu pedido.
Não ligo se demorar. Eu tenho fé no senhor. Eu, meus irmãos e minha mãe. Nunca deixaremos de acreditar, mesmo que todos ao nosso redor digam que o senhor não existe. Sei que existe.
Se receber a minha carta, por favor, tente me dar a oportunidade de saber sobre o mundo e as coisas que existem nele. Se for demais, apenas dê alguma coisa que a gente possa comer aqui em casa. O senhor sempre será bem vindo aqui. Em qualquer época do ano. A porta sempre estará aberta.
Atenciosamente…
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Repostando este, que acredito ser um dos melhores textos que já escrevi na minha vida. Enfim, feliz Natal pra quem acessa!
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Obaaaaaaaaaaaaaaaaa hehe que bunitinho este texto… parece uma “criança” escrevendo rs
Mas de boa .. olha felicidades .. que Papai Noel te ajude e te dê muita saúde e paz :* Bjão garoto felicidades e um ótimo 2009 !!
:*
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haha! esse post ficou lindo, mesmo. parabéns!
espero que, apesar de todo o sofrimento que nos rodeia, vc tenha tido um ótimo natal.
e comentei agora há pouco, digitei o link do blog meio que automaticamente depois de ler o feed. foi um acidente… mas espero sim que vc consiga um emprego como publicitário, e seja feliz com ele!
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Caro Rafa, tudo bem?
Impossível ficar omisso e acomodado após ler esta sua carta.
Ela exibiu vários esgotos a céu aberto no Brasil e no mundo.
Você conseguiu reunir em breves palavras uma síntese de nossas desigualdades e falta de solidariedade por parte de grande parcela da sociedade que pensa que estar blogado, criticando e postando é ser revolucionário.
A internet, se não nos vigiarmos, faz-nos distanciar uns dos outros colocando-nos num mundo cada vez mais virtual, exercendo uma democracia mais virtual ainda, para a alegria das classes dirigentes e dos políticos profissionais.
Se quisermos deixar a cegueira que nos faz desviar daqueles que estão nos sinais de trânsito, daqueles que estão excluídos e famintos devemos aliar a teoria à prática. Transformar nossa indignação em AÇÃO. Cobrar dos gestores públicos, de gabinete em gabinete, até eles entenderem que somos muitos e organizados.
O que você escreveu tem vários títulos e não precisa ter nenhum porque sabemos do que se trata.
Valeu Rafa !
ABRAÇOCLARO
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