Arquivo por ‘Contos’ Categoria
Petrônio – O craque
O sonho do menino Petrônio era jogar pela seleção brasileira de futebol. Desde muito novo já esboçava os seus primeiros passos no campinho de terra do aglomerado onde morava. Seu futebol era diferente. Era moleque, brincalhão. O verdadeiro futebol arte.
O tempo passou e Petrônio cresceu. Agora era um adolescente e gostava de ser chamado de Pepê. Ainda dominava como ninguém uma bola de couro. Praticamente brincava em campo com os outros garotos.
E não era só no campo que ele brincava. Também adorava brincar com a namorada no quarto. Numa dessas brincadeiras, Pepê enfiou o Pipi sem camisinha e encomendou um bonequinho.
Hoje, aos 24 anos, Pepê pesa 104kg e trabalha no açougue do seu Gilberto.
Era evidente que o futuro de Pepê estava na bola.
Posts Relacionados
O pessimista by rafabarbosa
A emocionante história de Ricardo Tavarez, o pro-blogger que só queria ser amado. by rafabarbosa
Risadinha by rafabarbosa
Pedido by rafabarbosa
A felicidade do Juca by rafabarbosa
O Evangelho segundo a blogosfera
Então existia aquele blogueiro, um tal de Jesus. O cara mandava bem no que fazia. De retórica excelente, atraía seguidores por onde passava. Apesar de influente, ele gostava de manter uma certa privacidade dos seus conhecimentos. No twitter só tinha 12 seguidores, mas o número de leitores do seu feed aumentava a cada dia.
Nos BlogCamps e Campus Party da vida, Jesus era figurinha carimbada. Sempre chamado para ministrar palestras, onde havia Jesus havia pessoas em volta absorvendo atentas aos ensinamentos daquele blogueiro proeminente.
Diz-se que a blogosfera foi criada por Jesus. Antes dele havia apenas sites, fóruns e listas de discussão. O cara foi pioneiro ao espalhar a palavra. Foi questão de tempo até que ele começasse a incomodar os grandes conglomerados de mídia e um certo todo poderoso.
Muitos acreditam que Jesus possuía um dom divino de criar posts polêmicos. A cada novo texto em sua página, centenas de comentários pipocavam e a discussão era sempre sadia. Como não poderia deixar de ser, naquela época também já existiam os trolls. Aqueles que não acreditavam em nada do que Jesus falava e sempre tentavam arrumar alguma treta com o messias da comunicação.
Jesus operou pequenos milagres no meio virtual. Um deles foi a multiplicação de links, onde uma pequena citação em um post de sua autoria foi o suficiente para que um blog completamente desconhecido se tornasse a grande revelação da blogosfera.
A passagem de Jesus pela Internet foi meteórica. Houve uma ascensão gigantesca desse jovem blogueiro. Porém, um tempo depois, graças as suas críticas sempre muito ácidas contra a grande mídia, Jesus foi crucificado por esse grande magnata midiático. Devido a um processo sem direito a uma boa defesa, Jesus passou pelo que muitos chamam de via crucis.
Fora humilhado e espancado pelos grandes meios de comunicação. Teve a sua intimidade exposta em TV Aberta e passou por muitos transtornos. Tudo isso levou Jesus a cometer Orkuticidio, Twittercídio, MSNcídio e, por fim, blogcídio. Por ser um cara bem versado e sem papas na língua, Jesus foi vítima da manipulação operada pelos grandes meios de comunicação e teve que abandonar tudo.
Jesus chegou a ressuscitar o seu blog pouco tempo depois. Muitos acreditaram que foi um milagre. Mas, cansado desse mundo desregrado e cheio de pecados que é a blogosfera, ele resolveu descansar.
Seus seguidores ainda espalharam a palavra por muito tempo e foram responsáveis pela publicação de um livro reunindo os melhores textos de Jesus. Esse livro é chamado de a bíblia dos blogs e conta com ensinamentos preciosos para aqueles que almejam e apreciam a boa escrita e grandes ensinamentos.
Ainda hoje muitos acreditam em um retorno triunfal de Jesus. Alguns sinais já são evidentes. A mídia precisa de um crítico e pouco a pouco os sinais dessa ressurreição vão sendo observados. Quando menos esperarmos, o blogueiro mais famoso de todos os tempos vai voltar com tudo.
Ou não, como dizem os céticos.
Posts Relacionados
O pessimista by rafabarbosa
Rocky Balboa Jr. by rafabarbosa
A felicidade do Juca by rafabarbosa
Profissão by rafabarbosa
Pedido by rafabarbosa
O Melhor lugar para comprar computador!
Essa merece vir para o blog. Essa semana comprei um computador novo e tenho que admitir: foi o melhor investimento da minha vida. Estava eu tranquilo assistindo a minha novelinha preferida – Caminho das Índias -, quando apareceu aquele comercial maravilho das Casas Bahia anunciando a semana da informática. Como o meu K6-II já andava meio capenga, fiquei de olho nas ofertas anunciadas. E no meio de Pen-drives, impressoras e monitores, eu vi aquele belo computador. Logo de cara já chamou a minha atenção e, no mesmo instante, coloquei o meu despertador no ponto: 7:30 da manhã. Quando a loja abrisse, as 8h, eu já queria estar lá.
No dia seguinte, lá estava eu. A vontade de comprar um computador era enorme e os vendedores das Casas Bahia farejam essa vontade de longe. Um vendedor de lá, o Wilton, me atendeu super bem. Perguntou se eu estava lá pela semana de informática e começou a me apresentar as ofertas. Mas como eu disse, foi amor à primeira vista com aquele computador da oferta. Percebendo que eu já estava decidido, Wilton me levou até o meu precioso.
Era um lindo AMD-Sempron, com 1GB de memória, HD de 80 GB. 80 GB esperando toda a minha coleção de vídeos pornô, músicas e grandes aventuras na terra mágica de Tíbia. O monitor era de 15 polegadas de LCD e, o melhor de tudo, era um PCTV. Eu poderia assistir aos meus programas favoritos durante uma ou outra partida de Ultima On-line. Sem contar que ele era todo pretão, com mouse óptico e um teclado maravilhoso. As caixinhas de som então, eram um show á parte.
Perguntei para o Wilton:
- Quanto é?
E ele me disse que à vista sairia por R$ 1500. Não era bem a minha verba disponível para informática, mas sempre muito prestativo, Wilton me disse que poderia fazer um crediário e dividir em 48 parcelas com uma taxa de juros baixíssima. Sem dúvida esse pessoal das Casas Bahia sabe trabalhar. Mesmo que você não tenha condições, eles dão um jeito de realizar o seu sonho. E esse Sempron era o meu sonho.
Feito o crediário, meu crédito foi aprovado, afinal, eu tenho o nome mais limpo do que UTI de pronto-socorro. Esperei a minha vez na fila para retirada de produtos e saí de lá com há de melhor e mais moderno no ramo da informática.
Chegando em casa só me deparei com um problema: Cadê o Windows? Veio um tal de Linux no lugar do bom e velho Janelas. Mas como eu tenho amigos bem informados, logo consegui um CD gravado pelo Pedrão e instalei tudo tranquilamente. Daí em diante foi só alegria.
Se me pedissem uma dica de um lugar com preços excelentes e qualidade em atendimento para comprar um computador, eu diria Casas Bahia sem pestanejar. Atendimento eficiente e bem educado, com o Wilton como prova viva disso, além de preços completamente acessíveis e as melhores formas de pagamento. Recomendo para todos os amigos. As Casas Bahia têm o melhor preço do mercado e é o lugar mais em conta para esse tipo de compra.
Até agora o computador não deu nenhum problema e estou felizão aqui, fazendo esse post diretamente do meu Sempron novinho. Bom, agora vou jogar um pouquinho de Tibia e mais tarde assistir a algum filminho educativo para adultos.
Fui.
*********
Esse é um publieditorial. Este é um post em forma de crítica. Um conto. Uma pegadinha. Uma ironia.
A história acima não é verídica. Foi uma invenção da minha mente sórdida e uma forma de criticar a atual farra dos publieditoriais. Por motivos de bom senso, estou fazendo esse breve comentário e salientando mais uma vez que a história acima não passou de uma gracinha. Também alterei o selo que estava aqui antes. O novo dá uma idéia melhor do que eu quero dizer:
Posts Relacionados
O pessimista by rafabarbosa
Profissão by rafabarbosa
O arqueiro by rafabarbosa
Petrônio - O craque by rafabarbosa
O Evangelho segundo a blogosfera by rafabarbosa
O blogueiro mais feliz do mundo.
Era uma vez um blogueiro, e vamos tratá-lo apenas assim, como “blogueiro”. Ele era um blogueiro de raiz, mantinha os seus textos sempre em um tom pessoal e nunca se vendia. De uns tempos pra cá, ele começou a utilizar o seu blog como um emprego e esporadicamente fazia publieditorais e posts patrocinados. O blogueiro era um entusiasta das mídias sociais e tudo o que elas proporcionavam.
Esse blogueiro também era publicitário. Logo, ele tinha um conhecimento um pouco maior de como a coisa funcionava e sabia como utilizar isso da melhor forma possível. Foi contratado para o departamento de mídias sociais de uma grande agência e a sua primeira missão, como coordenador de mídias sociais seria algo, no mínimo, inusitado.
Uma casa de tolerância, o famoso puteiro, em um linguajar mais sujo, estava crescendo e o nível dos seus clientes também. Como investir em mídias sociais é a tendência da moda (redundância?), o dono dessa casa resolveu procurar a agência do blogueiro para trabalhar a sua marca e aumentar o retorno através da utilização dessas mídias sociais.
O blogueiro, o personagem principal dessa história, era um cara esperto. Bem esperto. Sabia do que o pessoal gostava. Todo mundo gosta de brindes, festinhas, ações que envolvam viagens e etc. Como todo bom estrategista de mídias sociais, o blogueiro pensou em uma ação que envolvesse, claro, os blogs, o twitter e redes socias como Orkut e MySpace.
Para os blogs, o blogueiro aproveitou a sua grande influência e cantou a pedra para o pessoal do planejamento e o dono do puteiro:
- Vamos resenhar as suas garotas!
- E como seria isso? Disse o dono do puteiro.
- Bom, eu posso passar 2 horas com cada uma delas e realizar posts no meu blog. Com a minha influência e a quantidade de leitores virgens que possuo, logo logo terá fila dando a volta no quarteirão para conhecer a sua casa.
- GÊNIO!
Exclamou o dono do puteiro.
E lá foi o blogueiro, passar uma semana trepando com todas as garotas da casa de tolerância e resenhando a transa e o tratamento recebido nos seus posts que entravam no ar todas as noites. Logo se tornou um sucesso e, como é bem a cara das mídias sociais, os posts se viralizaram de uma maneira impressionante. De fato, as pessoas já estavam fazendo filas para conhecer esse puteiro que o blogueiro descrevia como “o paraíso na Terra”. “a melhor foda da minha vida”, “um boquete inesquecível” e vários outros adjetivos pomposos.
A segunda etapa da estratégia pensada por esse gênio das mídias sociais foi convocar os blogueiros mais badalados do momento para um “safari” na zona. O kit que esses blogueiros receberam continha um pacote de camisinhas, uma camisa com a frase “Intro-Meteu” e vários mimos como vibradores, bonecas infláveis e vale drinks que poderiam ser utilizados á vontade durante o “safari”.
Foram dois dias da melhor putaria da vida desses caras. Em um fim de semana comeram mais mulheres do que em toda a sua vida. Um live-stream para a ação foi criado, acompanhando as fotos e os vídeos que eram postados, além de coletar todos os twitts que continham a tag #intro-meteu. Claro, em um primeiro momento a ação do blogueiro foi mal vista, pois todos os vídeos que subiam para o Youtube eram deletados logo em seguida devido ao conteúdo explícito. As fotos do Flickr eram um verdadeiro acervo digno dos maiores catálogos de pornografia do mundo.
No Orkut, foram criadas várias comunidades contra e a favor a ação. A repercussão foi excelente. A ação foi excelente. E o blogueiro? O blogueiro era o cara mais feliz do mundo. Comeu mais de 30 mulheres em uma semana e não precisou gastar um centavo pra que os outros blogueiros fizessem da sua campanha um sucesso. Naquele momento ele era o blogueiro mais feliz do mundo.
Posts Relacionados
Rocky Balboa Jr. by rafabarbosa
Enquanto isso... by rafabarbosa
O arqueiro by rafabarbosa
A felicidade do Juca by rafabarbosa
Historinha by rafabarbosa
A emocionante história de Ricardo Tavarez, o pro-blogger que só queria ser amado.
Por trás de luxuosos passeios patrocinados por anunciantes regados à Bavária e charutos importados da Guatemala, existe toda uma realidade, um dia a dia na vida de um pro-blogger. Esta é a história de um cara, igual a eu ou você, que se esforçou, que lutou, prosperou e hoje em dia é um dos mais renomados e conceituados blogueiros do Brasil, quiçá do mundo.
Ricardo Tavarez era um garoto comum. Criado em um bairro de classe média, teve o seu primeiro contato com o incrível mundo da informática aos 13 anos de idade (o primeiro contato com uma mulher nua de verdade, só veio ocorrer anos depois, muitos anos depois). Desde então se apaixonou pelas maravilhas proporcionadas pelo computador. O jovem Ricardo começou a entender a máquina como ningém. Em poucos meses já estava programando e aprendendo cada vez mais.
Os anos foram passando e Ricardo Tavarez descobrira uma nova maravilha em relação aos computadores: a Internet. Sua casa foi uma das primeiras a possuir uma conexão com a grande rede. Ricardo passava horas e horas participando de listas de discussão e bulletins. Depois, resolveu avançar um pouco mais e começou a acessar salas de bate-papo e em pouco tempo já estava criando os seus próprios sites. Era um prodígio, sem sombra de dúvida.
Ricardo acompanhou de perto a evolução da Internet no Brasil e, como fazia parte do pequeno grupo de usuários que desbravavam essa terra inexplorada em busca de oportunidades, em pouco tempo foi fazendo grandes amigos virtuais, que, assim como ele, passavam horas e horas em frente ao computador absorvendo informação, música pirata, pornografia e programando.
Em 1998, ao participar de listas de discussão do mundo todo e ser um cara antenado, Ricardo descobriu uma nova ferramenta que vinha ganhando força nos Estados Unidos. Como sempre foi um cara bem informado e que adorava descobrir e difundir tendências, foi logo criando o seu “blog”. Ricardo não fazia idéia, nem seus amigos, de que essa seria a ferramenta do futuro e que anos mais tarde os tornariam personalidades na Internet. E o nosso jovem montou o seu blog, o Barraca Armada.
O Barraca Armada era um espaço pessoal onde Ricardo Tavarez podia contar sobre a sua vida, o seu dia a dia, as suas aventuras e desventuras, ao contrários dos seus sites, que geralmente eram acessados por usuários fiéis e que não se interessariam em saber que o gatinho de Ricardo, o Ulisses, havia derrubado um pote de Whiskas no teclado do K6-II velho de guerra. O blog proporcionava essa liberdade e Ricardo adorou. Sentia-se livre, como não se sentia há anos.
Os anos foram passando e Ricardo e o Barraca Armada foram se tornando cada vez mais populares. Sua rede de amigos virtuais crescia em progressão geométrica. Por ser um dos primeiros, senão o primeiro blogueiro brasileiro, Ricardo se tornou referência na hora de criar um blog. Todos pergutavam ao rapaz o que era necessário para se obter o sucesso. Com isso, Ricardo foi se tornando vaidoso. Quem antes era um humilde usuário de internet, ao se ver como exemplo para os demais, foi sentindo o gosto do poder. O gosto doce e prazeroso de, certa forma, ser superior aos demais.
Com alguns anos de blog, Ricardo descobriu uma ferramenta mágica criada pelo Google: o AdSense. Essa incrível ferramenta pagava aos administradores de sites, blogs ou fóruns um valor determinado a cada clique de anúncio veiculado. E o melhor de tudo: em dólar. Renato, curioso como só, resolveu utilizar a ferramenta e experimentar, quem sabe dalí não saíria uma graninha?
E como um magnata da mídia, Ricardo Tavarez prosperou. Em um dia recebia mais de 500 cliques em seus anúncios AdSense e faturava altíssimo. 50, 60 dólares por dia. Em um mês Ricardo já havia ganhado com seu blog o que ganharia em três meses de trabalho. A internet era o arco-íris, o blog, o pote de ouro no final, e Ricardo, era o mocinho que cruzava o arco-íris em busca do ouro.
As horas em um cubículo de uma copiadora tirando fotocópias deram lugar a horas e mais horas em frente ao computador. Ricardo largou o emprego de auxiliar de fotocópia e resolveu adentrar com tudo no mundo dos blogs como negócio. Assim como no esporte, Ricardo agora era um profissional dos blogs, ou como ele gostava (gosta ainda) de ser chamado: pro-blogger.
Percebendo o crescente potencial da Internet como veículo de comunicação, e acima de tudo, dos blogs, as agências de publicidade resolveram explorar esse novo mundo e começaram, bem timidamente, a procurar blogueiros para anunciar campanhas, produtos e empresas nos seus espaços virtuais. O que antes era um diário, divertido e descompromissado, se tornava um local de trabalho. O que Ricardo havia comido no almoço não importava mais. Ao invés disso ele postava críticas ácidas à sociedade, à comunicação, um ou outro assunto que estava bombando no momento e agora, posts patrocinados por empresas.
Era uma nova era. A era da profissionalização dos blogs e dos blogueiros. Ter um blog agora era sinal de maturidade, empreendedorismo e uma visão de mercado sem precedentes. O dinheiro entrava como água na conta de Ricardo. Ele se permitia pequenos luxos como uma cervejinha no final de semana, uma baladinha no sábado, vez ou outra pagava uma garota de programa. Era um mundo mágico, um sonho do qual Ricardo não queria acordar.
Aquele menino gordinho, suado e cheio de espinhas que sempre fora humilhado pelos amigos na infância, hoje era bem sucedido. Tinha amigos de verdade, todos virtuais. Se encontravam uma vez por semana, quando saíam de casa e iam pra algum bar falar sobre monetização, agências de publicidade e tendências nas mídias sociais. Ricardo era o que eu, você e a mídia chamaria de bem-sucedido e relevante na meritocracia da Internet.
O que ninguém imaginava era que, por trás dos posts super badalados do Barraca Armada, dos mimos recebidos por Ricardo para resenhar, que iam desde camisinhas com sabor de morango à suportes para bebedouros industriais, dos eventos repletos de deslumbramento, comida farta e mulheres, existia um blogueiro amargurado. E é sobre essa outra faceta de Ricardo Tavarez que eu gostaria de falar agora.
Ricardo sempre fora um menino caseiro. Isso se agravou com as brincadeiras de mal gosto de seus amigos de infância. Por ser gordinho, ter espinhas e suar demasiadamente, Ricardo era chamado de Croquete. Isso pode ser traumatizante para uma criança e, de fato, foi para Ricardo. Sempre ignorado pelas meninas pela sua aparência, Ricardo foi se recolhendo a um mundo virtual onde poderia ser quem quiser. Se Ricardo fosse Adão, a Internet seria a sua Eva.
Com a descoberta do blog e o crescente sucesso adquirido na rede, Ricardo foi incorporando novos traços de personalidade. No mundo virtual, quase ninguém sabia como ele era de verdade. A sua personalidade na rede era totalmente oposta ao menino frágil e carente por trás do monitor. Respondia às críticas com um tom severo. Na internet, ele era um valentão e isso foi se tornando uma caraceterística marcante na vida do blogueiro Ricardo Tavarez. Mas, por dentro, ele ainda era o Croquete.
Conversando com Ricardo Tavarez, eu vi em seus olhos um brilho diferente. Ele se sentia bem quando conversava com alguém que o tratasse bem. Uma conversa sincera, frente a frente, com a pessoa, o humano Ricardo Tavarez. Quando o questionei sobre perguntas pessoais, que qualquer jornalista faria, a princípio senti um pouco de hostilidade, mas da mesma forma que as agências de publicidade conquistavam o coração de Ricardo com mimos, eu o conquistei com carinho. Usei um tom de voz sereno, bem calmo, como se fosse um psicólogo, ou até mesmo um melhor amigo, já que o entrevistado, até os dias atuais, não havia tido nenhum “melhor amigo”.
Durante o bate-papo, perguntei ao Ricardo sobre os amores, como andava o coração desse blogueiro que todos adoram. E também pedi para contar um pouco sobre a sua vida amorosa passada e a atual. Ricardo, como a grande maiora dos blogueiros, é tímido, e disse que estava bem. Em tom de brincadeira disse que transava bastante, mais do que planejou quando era adolescente e se entretia acessando sites pornográficos. Mas, da mesma forma com que Ricardo suspeitava de um e-mail malicioso em sua caixa de e-mail, suspeitei que ele estava escondendo algo de mim. Apertando um pouco mais o entrevistado, Ricardo finalmente abriu o seu coração.
Ele nunca havia namorado. Nuunca havia sido amado por ninguém a não ser sua mãe e sua avó. O primeiro beijo e a primeira transa de Ricardo ocorreram no mesmo dia. E com uma blogueira. Uma garota de programa blogueira, diga-se de passagem. Segundo Ricardo, a moça em questão, além de cobrar a hora de programa, ainda cobrou um link e um banner. Como Ricardo esperou 32 anos por aquele dia, um link (com nofollow) e um banner não seriam nada comparado ao mais próximo de ser amado que ele teria.
Ricardo afirma, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar que foi o melhor beijo e a melhor transa de sua vida. Mesmo durando 7 minutos, dos quais 3 foram gastos tentando encontrar o “alvo”. Nesse momento eu percebi que Ricardo, o pro-blogger bem sucedido, referência na área, odiado por milhares, amado por milhões, poderia ser realizado financeiramente, materialmente e possuir um status de celebridade na internet. Mas, no mundo real, a única coisa que esse blogueiro deseja é apenas ser amado. Sem ter que linkar de volta ou pagar por isso.
Escrevo este texto com lágrimas nos olhos ao perceber que, para uma pessoa que tem tudo, uma dos sentimentos mais humanos que existe, o amor, era ainda um bem inalcançável. Ricardo disse que até tentava se aproximar de blogueiras promissoras, oferecendo “suporte” e “dicas” em troca de um pouco de atenção. Mas bastava apenas um encontro pessoal para que toda a magia acabasse e os blogueiros não tão bem sucedidos, mas com um porte físico um pouco menos assustador, se dessem bem em cima das garotas que o nosso querido Ricardo almejava.
Encerro esse artigo com uma pergunta e uma resposta da entrevista original que define bem como é a personalidade de blogueiro que, assim como nós, também é humano:
Como você reage às críticas de pessoas que não concordam com os rumos que os blogs vêm tomando?
Eu quero que todas se danem. Se eu sou bem sucedido, relevante e reconhecido, é pelos meus próprios méritos. Eu sei que sou um daqueles casos típicos de pessoas que causam inveja. Todos querem a minha amizade, mas não basta só adular. Tem que fazer por merecer, entender que, em uma relação que envolva o mundo e eu, não preciso dizer quem dá as cartas, não é mesmo?
Posts Relacionados
O pessimista by rafabarbosa
Historinha by rafabarbosa
O arqueiro by rafabarbosa
Rocky Balboa Jr. by rafabarbosa
Petrônio - O craque by rafabarbosa
Pedido

Querido Papai Noel,
O ano está acabando e com ele mais um natal sem presentes. Será que não fui um bom garoto? Trabalhei todos os dias desse ano. Saía de casa às 6h da manhã e voltava as 22h. Nem sempre com o dinheiro necessário para sustentar minha mãe e meus quatro irmãos.
Quando podia, lia algumas coisas, já que não tenho tempo para estudar. Não tenho tempo e nem dinheiro, já que a escola mais próxima que poderia me matricular fica do outro lado da cidade. Estudar em uma escola particular nem pensar. Ou estudo ou minha família morre de fome. Estudo não enche barriga, ao contrário do dinheiro que tento conseguir todos os dias.
Será que deixei de cumprir alguma obrigação? Será que não vou ganhar presentes por não almoçar direito? Não é sempre que temos alguma coisa em casa para comer. Como sou mais velho, deixo o pouco que tem para os meus irmãos, mas mesmo assim, nem eles ganham nada no natal.
Será que nossas cartas não chegam até o Polo Norte? Acho que os selos que podemos comprar não são suficiente para uma carta que pretende chegar tão longe.
Ás vezes acho que o Senhor realmente não existe. Muitos dizem isso, mas não acredito. Não acredito porquê sempre vejo crianças com presentes no dia de Natal.
Pode ser que o senhor não receba minha carta, ou tenha medo de subir onde eu moro. Muitas pessoas tem medo. Têm que pedir autorização pra quem toma conta daqui. Quem toma conta de onde eu moro, são pessoas do “movimento”. Acho que elas não acreditam no senhor, mas isso não impede que eu acredite.
Escrevo essa carta tendo a esperança de todos os anos. A esperança de que o senhor vai recebê-la e na véspera do Natal, quando der meia-noite, o senhor vai chegar no seu trenó e deixar os nossos presentes na porta de casa. Na porta, não temos chaminé. Mas acho que o senhor não importa não é mesmo? Isso não é muito comum no meu país.
O que eu mais quero nesse Natal é que eu não dependa do meu trabalho. Eu gosto do meu trabalho. Mas gosto de ler, de escrever. Gosto de estudar e saber o que acontece no mundo. Gosto de fazer cálculos quando preciso e gosto de saber a história do meu país. Gosto de saber porquê falam tanto nesse tal de aquecimento global. Gosto, mas não consigo entender. Não consigo porquê não estudo. Eu quero estudar. Quero orgulhar minha mãe. Quero fazer algo que ela possa lembrar e se orgulhar. Quero que meus irmãos saibam que eu faço o melhor por eles.
Eu sei que isso pode não ser nada perto de milhares de video-games, computadores, bicicletas, bonecas e carrinhos que o senhor recebe como pedido todos os anos. As vezes um pedido assim pode passar despercebido. Ou pode ser que seus elfos ainda não saibam como construir escolas ou escrever livros. Eles devem ser como eu. Só devem saber construir brinquedos, da mesma forma que só sei vender balas no mesmo sinal. Faço isso desde que me tornei gente. Gostaria de fazer outra coisa. Não que eu não goste do que faço, apenas queria fazer coisas novas e que as pessoas não me ignorassem.
Alguns acham que sou bandido, Papai Noel. Quando olham pra mim fecham as janelas dos carros. Não entendem que eu estou alí só para vender balas. Acham que estou alí para disparar balas. Eu não quero ser visto assim. Quero ser visto como o senhor, que todos abrem a porta para receber. Sempre com um sorriso no rosto, um copo de leite e biscoitos. Será demais pedir isso?
Vou encerrando minha carta por aqui. O senhor deve estar cheio de pedidos para atender. Sei que é difícil para o senhor, mas sei também que não deixa nenhuma criança na mão. Se deixa não é por mal, tenho certeza. Sei que o senhor não deve receber minhas cartas. Só pode ser essa, a única explicação para eu não ganhar nada. Mas eu não fico chateado com o senhor. Sei por experiência própria. É a mesma coisa quando chega o final do mês e o dinheiro que consegui não dá pra pagar as contas e comprar comida para todo mundo aqui em casa. Ninguém fica decepcionado comigo. Sabem que não foi minha culpa. Foi apenas um mês apertado, mas mesmo assim continuam acreditando em mim. Como eu acredito no senhor. Sei que existe, e quando tiver a oportunidade de ler a minha carta, vai atender ao meu pedido.
Não ligo se demorar. Eu tenho fé no senhor. Eu, meus irmãos e minha mãe. Nunca deixaremos de acreditar, mesmo que todos ao nosso redor digam que o senhor não existe. Sei que existe.
Se receber a minha carta, por favor, tente me dar a oportunidade de saber sobre o mundo e as coisas que existem nele. Se for demais, apenas dê alguma coisa que a gente possa comer aqui em casa. O senhor sempre será bem vindo aqui. Em qualquer época do ano. A porta sempre estará aberta.
Atenciosamente…
———————————————
Repostando este, que acredito ser um dos melhores textos que já escrevi na minha vida. Enfim, feliz Natal pra quem acessa!
Posts Relacionados
Mil tretas by rafabarbosa
Supermercado by rafabarbosa
Profissão by rafabarbosa
O Melhor lugar para comprar computador! by rafabarbosa
Rocky Balboa Jr. by rafabarbosa
Questão de ponto de vista
Esse é um relato em primeira pessoa de uma garota comum, como qualquer outra.
As garotas da minha idade são garotas normais. Acordam com mau-hálito, mijam, dão um peidinho, escovam os dentes, tomam banho, trocam de roupa e vão trabalhar. Algumas têm carro, outras vão de ônibus e algumas até vão a pé, quando a distância não é grande. Garotas normais como qualquer outra.
As garotas da minha idade vão para baladinhas, micaretas, shows, faculdade, viagens com amigos, enfim, se divertem. Ah, essas viagens, essas baladinhas, essas micaretas, esses shows e essas faculdades. Tem cada rapaz ali que, meu Deus, fico até sem palavras. Também existem os feios, mas com um bom whisky, ficam até simpáticos. Claro, nenhum deles chega aos pés do Rafael Barbosa, mas eles tentam.
As garotas da minha idade conhecem e conversam com rapazes. Isso é natural do ser humano. Toda garota comum conversa com rapazes, interage, troca telefones, abraços, apertos de mão e carinhos. Algumas vezes essa interação vai além, mas já já explico.
Algumas garotas pregam o “agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”, e saem fazendo a limpa nas baladinhas, boates, shows, micaretas e viagens. Pegam todos e fazem de tudo. São garotas normais que têm necessidade de suprir os seus desejos e impulsos sexuais. Tudo bem, também faz parte do ser humano.
Essas garotas, que fazem tudo isso, entre quatro paredes com os seus rapazes, também fazem de tudo. Gostam que puxe o cabelo, gostam de tapa na bunda, gostam de chupão, gostam de chupar, gostam de ficar por cima, gostam de ficar de quatro, gostam de xingar e serem xingadas e por incrível que pareça, fazem tudo isso sem pedir nada em troca. Nem o telefone do cara, ás vezes. Só por pura diversão.
Agora quando eu faço isso, eu sou uma puta. E sou vista com outros olhos por essas mesmas garotas. Eu também curto baladinhas, eu também curto boates, eu também curto shows, eu também curto micaretas e eu também curto viagem com os amigos. Eu sou solteira e ninguém vai me segurar, sim. Mas enquanto as garotas fazem isso com o dinheiro que o papai dá de mesada, eu faço isso com o dinheiro que eu ganho no meu trabalho. Não sabe qual é o meu trabalho? Eu explico.
Meu trabalho é chupar, ser chupada, dar de quatro, dar de lado, dar por cima e dar por baixo. Meu trabalho é gostar que puxem o meu cabelo, que me dêem tapa, que me dêem mordidinhas, que me xinguem e que me peçam pra xingar. O meu trabalho é fazer tudo isso que as garotas normais da minha idade fazem. Meu trabalho é ser garota de programa.
A sua filha faz isso tudo. Mas ela é santinha. Eu faço isso e sou prostituta. Essa é a minha profissão.
——————————————————-
Tema “A Prostituição pelo ponto de vista da prostituta”.
Sugestão do Super Wallace: Snes-Classics/SuperWallace.
Posts Relacionados
Rocky Balboa Jr. by rafabarbosa
O Evangelho segundo a blogosfera by rafabarbosa
A felicidade do Juca by rafabarbosa
A emocionante história de Ricardo Tavarez, o pro-blogger que só queria ser amado. by rafabarbosa
O arqueiro by rafabarbosa
Grande Nogueira
Daí que havia esse amigo meu, o Nogueira. Estudava na mesma escola que eu, desde que entrei lá. Mas só fui começar a conversar pra valer com ele muito tempo depois.
O Nogueira era o típico cara que todo mundo batia. Era magrelo, narigudinho e com cara de bobão. E ainda era nerd, o que piorava a situação dele uns 300%, levando-se em conta que o resto da escola era composto de metidos a valentões. Mas sabe aquela história de superação? Que no final o cara sai vencedor, conquista a menina e tem um final feliz? Bom, não aconteceu isso com o Nogueira. (Cabe aqui fazer o tracadilho recorrente que o Nogueira era alvo: OHH Nogueira? Oi. Pega na minha e cheira! haha.)
Não que tenha sido aquela superação, mas Nogueira conseguiu fazer com que, pelo menos, não abusassem mais dele. Em uma das muitas vezes que alguém tentou se aproveitar da fragilidade do menino, Nogueira deixou de ser um cagão e resolveu encarar. Sem medo, peito no peito. E quando foi atacado, revidou e saiu vitorioso na briga.
Desse dia em diante, todo mundo hesitava sempre quando pensavam em abusar do Nogueira. Aquele Nogueira… peça rara o menino.
Posts Relacionados
Supermercado by rafabarbosa
Alfredinho by rafabarbosa
Profissão by rafabarbosa
Mil tretas by rafabarbosa
Enquanto isso... by rafabarbosa
Rocky Balboa Jr.
Certas tragédias são anunciadas. Aquela já estava marcada fazia tempo. Era inevitável.
De um lado, Afonsinho. Menino magrinho, do tipo que se pode até contar as costelas enquanto despreguiça. Mas ele era ágil. E como era. Corria como ninguém. Carlão que o diga. Ah o Carlão! Era o valentão da escola. Roubava o Fandangos dos mais fracos, roubava os cards de
Mas Carlão nunca conseguiu pegar Afonsinho. O garoto corria. Parecia uma pena sendo carregada pelo vento. Carlão sabia que mais dia menos dia, pegaria Afonsinho na porrada, e ele machucaria e muito o pobre magrelo.
Em mais um recreio, logo após roubar os tazos de Fernandinho, roubar a coxinha de Catupiry de Fred e ainda roubar um beijo de Mariana, Carlão viu de longe o pequeno e indefeso Afonsinho. Carlão parecia estar possesso. Saiu empurrando todo mundo. O melhor amigo de Afonsinho, o Orelha, o grande orelha. Em todos os sentidos, olhou pra Afonsinho e disse:
- Lá vem merda.
Não deu outra. Carlão já chegou chutando o tabuleiro de D&D de Afonsinho. Nem o D20 sobrou pra contar história. Saudoso D20.
Por ter um excelente reflexo, Afonsinho pulou para o lado e olhou assustado. Carlão deu um berro dizendo: Hoje eu te pego magrelo. Mas antes de terminar a palavra “hoje”, Afonsinho já estava longe, entrando na sala de aula e sentando na sua cadeira perto da professora.
Não demorou muito e um bilhetinho chegou a sua mesa:
Vou te dar uma chance. Amanhã depois da aula, perto da barraca do Seu Zé. Só nós dois. Se eu ganhar, você me dá seu lanche e seu dinheiro todo dia. Se você ganhar, eu te deixo em paz.
Ao ler o bilhete, as finas e peladas pernas de Afonsinho tremeram. Mas ele sabia que era inevitável. Ele teria que encarar Carlão. Teria que colocar toda a sua força, destreza e inteligência a prova. Estava prestes a rolar os dados, e tudo que ele menos desejava era um erro crítico.
Ele apenas escreveu no bilhete: Desafio aceito. Estava lançada a sorte.
Você sabe como é escola, as notícias correm rápido. Todo mundo já estava sabendo do confronto. Orelha foi o primeiro a se manifestar. Era um amigão, diga-se de passagem, mas ele sabia das coisas:
- Cara, sabe que eu te acompanho em tudo. A gente é amigo desde que me entendo por espermatozóide, mas caramba. Enfrentar o Carlão? Você quer eu leve as más notícias para a sua mãe?
- Esse é o meu fardo, Orelha. Eu aceito o meu destino. Disse Afonsinho com um ar de reflexão.
- Afonso Fernando de Oliveira. Deixa eu explicar as coisas de uma forma que você vai entender. O Carlão é o Apollo Doutrinador, você é o Garanhão Italiano, mas sem músculos. E sem o Italiano. Pra falar a verdade, nem garanhão. O cara vai te doutrinar.
- Em todos os Rockys, o Balboa sempre ganhou. Disse Afonsinho tentando reverter a situação e consolar o amigo.
- Tudo bem, Afonso. Eu tenho um mal pressentimento em relação a isso. Mas como você disse, o fardo é seu. Que a força esteja com você.
E assim foi. Afonsinho foi para casa. Tinha 24 horas para treinar, pensar e formular uma estratégia de combate. Por coincidência, ou não, estava passando Rocky III na tv a cabo.
Não poderia ter filme melhor. Carlão estava mais para Clubber Lang do que para Apollo Creed. Era lá e cá. Rocky treinava ao som de Eyes of Tiger e Afonsinho acompanhava cada passo. Durante a luta, tentava assimilar cada golpe que Rocky desferia. Mas como todo mundo sabe, Rocky apanha em todos os filmes. Só bate nos 5 minutos finais e ganha.
Afonsinho começou a repensar a sua decisão. Resolveu jogar um pouco de World of Warcraft para esfriar a cabeça. Seu primo, Alfredinho estava online. Ele era seu conselheiro. Entedia das coisas. Mas nenhuma palavra era suficiente. O fim estava próximo.
Chegou o grande dia. A escola estava empolvorosa. O assunto era a luta. Para alguns, Afonsinho estava para Jake La Motta, assim como Paris Hilton estava para Maryl Streep. Ou seja, estava fodido.
Alguns poucos garotos soltavam uma ou outra frase de apoio. Alguns fizeram até vaquinha para comprar uma coroa de flores. A morte era certa. Carlão era invicto na escola. O cara era uma lenda. Com 7 anos de idade, dizem que matou um PitBull com uma mordida. Coitado do pobre cão.
Pindoca, que era o apostador da galera, dizia que estava 6 para 1. Era Carlão na cabeça. Iria faturar alto naquele dia.
Os minutos custavam a passar. Cada volta do ponteiro era uma tortura para Afonsinho. Sua vida foi passando diante de seus olhos durante todo o dia. Lembrou-se do seu primeiro video game. Um Master System III, que veio com Sonic. Lembrou do seu quase primeiro beijo. Poxa. Morreria virgem. De boca e de outras coisas. Lembrou do seu primeiro Action Figure de Star Wars. Um excelente exemplar de Han Solo, feito em chumbinho da melhor qualidade. Só faltava falar, de tão real.
Fez um pequeno testamento, deixando tudo para Orelha, que a essa altura já não tinha mais as unhas dos dedos. Roera todas.
- Cara, ainda dá tempo de desistir. Você não é um covarde. Isso é sobrevivência. Pensa bem. Você pode perpetuar a espécie. Não vai dar mole.
- Orelha. O fim está próximo. Mas não me entregarei sem luta. Se eu morrer, morrerei lutando. Eu represento a esperança de cada aluno maltratado pelo Carlão. Para eles, eu sou Luke Skywalker, a esperança da Aliança Rebelde.
Sem dúvida. Os alunos que sempre foram maltratados por Carlão olhavam com admiração para Afonsinho. Até tiraram as medidas do garoto para fazer uma estátua em sua homenagem.
O sinal tocou. Era chegada a hora. Afonsinho caminhava tranquilamente, rumo a sua Fenda da Perdição.
O clima era fúnebre. O fim era próximo.
No local combinado, em frente a barraca do Seu Zé, já estava formada a rodinha. Coincidência ou não, havia uma ambulância estacionada do outro lado da rua.
Carlão, com uma cara mais assustadora do que nunca, já tinha tirado sua camisa do uniforme e ostentava uma camiseta rasgada nos braços, com um enorme Eddie e um Iron Maiden de todo tamanho. Mais valentão impossível.
Afonsinho, o nosso herói, ou quase isso, mirradinho como só ele, estava com sua camisa
- É magrelo, de hoje você não passa. Não vai ter corridinha nem nada do tipo. Carlão soava mais ameaçador ainda, quando falava nesse tom.
- Cara, whatever. Curto e grosso o tal do Afonsinho.
E Pindoca soou o gongo. Ou uma batidinha com um espetinho na grade da escola.
Carlão foi furioso para cima de Afonsinho. Deu um soco no ar e Afonsinho se esquivou. Sentia que estava prestes a tomar uma surra homérica. Algo nunca antes visto.
Carlão veio de novo, e Afonsinho usou mais uma vez o seu reflexo. Santo Guitar Hero, pensou Afonsinho. Se não fosse pelo jogo, não conseguiria prestar tanta atenção às investidas de Carlão. Mas bem no meio de seus pensamentos, sentiu uma pancada no lado esquerdo do rosto. Nesse momento tudo ficou escuro. Orelha, que estava na frente da multidão, se transformou em uma espécie de pintura de Salvador Dali. Ficou deformado, meio derretendo. As vozes ficaram distorcidas e o chão ficou próximo. Muito próximo. Tão próximo que seu nariz encostou no passeio sujo.
Um cruzado de direita de Carlão. Atingiu bem em cheio o rosto de Afonsinho. Nunca sentiu uma dor tão forte. Mas isso o fez acordar. Claro, depois de uns 3 minutos. Com esse soco, o Nível de Experiência de Afonsinho aumentou. Tipo uns 5 níveis. Era hora de mostrar que não era tão fraco assim.
Lembrou-se de Paulie falando com Rocky durante a luta contra Ivan Drago. Acerte o do meio. Afonsinho estava enxergando três Carlões. Foi para cima de Carlão e deu um soco. Aliás, deu O soco. O maior soco da sua vida. Concentrou toda a força que tinha nesse soco. Parecia coisa de cinema. Sua mão seguindo em direção ao nariz de Carlão. Atrás da sua mão, o rastro. Estilo Bullet Time do Matrix. De repente o rosto de Carlão foi se afastando. Afastando. E tum. Tomou uma joelhada na boca do estômago.
Sentiu a sua merenda querendo sair pela boca e por outros lugares. Estava fadado a morrer, coitado.
Caiu no chão. Encolhido. Só queria que aquilo terminasse.
Olhou para o lado e viu Orelha. Orelha coitado, não sabia muito bem o que estava fazendo, mas foi em direção a Carlão, que estava de costas. Durante a corrida, Orelha pulou e como se fosse um lutador da WWE, que era fã, e colou os dois pés nas costas de Carlão. Coitado, Carlão deu dois passos para frente, virou-se para Orelha e tascou-lhe um sopapo na orelha. Parecia que uma granada tinha explodido perto da sua cabeça. Orelha não escutava nada. Literalmente.
Aquela cena parece que comoveu as vítimas de Carlão. De repente um bando de pequenos e indefesos garotos foram pra cima do valentão. Parecia aquelas cenas épicas de filmes, onde um exército vai de encontro ao outro. No nosso caso, era um bando e magrelos e nanicos indo pra cima de um brutamontes.
O primeiro tomou uma pesada na cara e caiu no chão. O segundo uma cotuvelada no nariz. Quando viu o sangue, desmaiou. O terceiro hesitou. Mas essa distração ajudou Afonsinho, que não estava morto nem nada. Levantou e por trás acertou um chute no meio das pernas de Carlão. Ali era a zona proibida colega. Ninguém aguentava uma pancada naquela área. Se existia o tal do Calcanhar de Aquiles, era uma grande lorota. Deveria se chamar Bago de Aquiles.
Carlão gemeu de dor, se ajoelhou e sentiu aquela dor típica logo acima do abdômen. Queria chorar. Mas nem isso conseguiu. Logo em seguida tomou mais uma pancada, dessa vez na nuca. Era Orelha. Completamente surdo, mas ainda sim deu uma piaba em Carlão.
Aquela foi a deixa para todos os outros garotos pularem em cima de Carlão. Ele parecia uma açucarada e saborosa bala e os outros alunos um bando de formiga sedentas por açúcar.
Depois de algumas pancadas, Carlão começou a chorar. Se levantou e saiu correndo.
Nas calças, uma pequena mancha marrom. Quando a turma viu, caiu na gargalhada.
Naquele dia Afonsinho se tornou um herói. Venceu o seu desafio. A sua prova. Saiu de lá com um roxo no olho mas consagrado.
Já Carlão, coitado. Ficou com tanto medo e tanta vergonha que pediu para mudar de escola. Hoje em dia bate em outros molequinhos do outro lado da cidade. Não toma jeito, aquele mequetrefe.
Posts Relacionados
Pedido by rafabarbosa
Mil tretas by rafabarbosa
Historinha by rafabarbosa
O Evangelho segundo a blogosfera by rafabarbosa
Pedido by rafabarbosa
Alfredinho
Ele era o motivo de chacota na escola. Gordinho e cheio de espinhas, Alfredinho passava os dias lendo quadrinhos, jogando RPG e discutindo qual trilogia era melhor, Senhor dos Anéis ou Star Wars. Era o que se chamava de Nerd. No sentido mais puro da palavra. Durante a noite, nos chats, fóruns, twitters e MMORpg’s da vida, ele era Alundil, o Elfo.
Alfredinho sempre foi o motivo das piadas de Edinho, o popstar da galera. Forte, loiro e rico, Edinho era o centro das atenções. Os meninos o invejavam. As garotas o desejavam e ele sabia aproveitar essa fama. Beijos depois da aula, no muro da escola era o que não faltava. Mas ele não podia topar com o gordinho. Sempre com uma piadinha na ponta da língua. A mais clássica era levantar quando Alfredinho sentava. Aquele movimento de “ser jogado pra cima”. Quem nunca fez isso?
Mas o futuro tinha planos para Alfredinho e Edinho. Alfredinho, entre um festival de Cosplay e uma partida de D&D, estudava e lia bastante. Tinha um futuro promissor, como era de se esperar. Já Edinho, no tempo livre, ficava na internet buscando “mulheres com seios enormes” no Google e tentando ver suas amiguinhas peladas pela webcam.
Os anos foram passando, e Alfredinho foi emagrecendo. Sabe aquela fase em que os homens crescem de uma vez? Então, Alfredinho cresceu e a gordura acumulada foi melhor distribuida. Não era o que podia se chamar de magro, mas também não era mais o gordinho nerd da turma. Bom, ainda era nerd, mas não tão gordinho assim.
E lá foi Alfredinho, cursar a sua faculdade de Ciências da Computação, enquanto Edinho passava em centézimo lugar excedente no curso de Educação Física de uma tradicional faculdade particular.
Mais forte do que nunca, Edinho logo se tornou o centro das atenções na sua nova sala. Ele era bonito, tenho que confessar. Se fosse mulher, eu daria pra ele.
Alfredinho não chamava a atenção. Ninguém reparava naquele pobre nerd.
Mas como é o costume das faculdades, era chegada a hora do trote. Edinho como era descolado e pra frente, foi poupado no seu trote. Só teve a cabeça raspada e o rosto pintado. Nesse dia, Edinho conheceu Silmara. Uma veterana gostosa da sua faculdade. A quimica foi imediata. Ela já tinha a ficha completa de Edinho. Sabia que o pai era deputado e que ele morava em um dos mais tradicionais bairros da cidade. Ela não era interesseira, longe disso, mas queria um futuro garantido. Ali começou um romance que prometia. Vinte minutos depois Silmara já estava sem a calça de ginástica e Edinho sem a sua bermuda Adidas no vestiário da faculdade. Saíram de lá namorando. Apaixonados.
Já o nosso nerd favorito, Alfredinho, estava sendo exposto às mais tenebrosas formas de tortura que um calouro poderia passar. Os alunos de Ciências da Computação eram o alvo preferido dos veteranos. Coitados, sempre humilhados.
Durante o trote, um grupo de alunos arrastou o mais tímido dos calouros, Alfredinho, para um canto mais afastado e tiraram a roupa do pobre nerd. Alfredinho queria chorar, mas estava na faculdade. Ele aguentou bem. Ele não entendeu a cara de espanto dos outros alunos ao verem pelado. Era uma mistura de terror, admiração e curiosidade. Ficaram surpresos ao ver que Alfredinho tinha um enorme diferencial.
No meio desses alunos estava Pablo. Para vocês ele não é ninguém, mas para quem curte uma putaria virtual, ele era simplesmente o dono do maior portal de pornografia brasileiro. Uma mente brilhante. E dono de um negócios em franca expansão, afinal, os seus vídeos faziam sucesso e o número de assinaturas do site crescia assustadoramente. Edinho assinava. Se não me falha a memória, foi um dos primeiros a assinar.
Pablo viu em Alfredinho uma mina de ouro. Iria aproveitar aquele nerd. Ia transformá-lo em um homem. O garoto tinha potencial.
- Ai, gordinho. Tu conhece o buraco69.net?
- Conheço sim. Disse Alfredinho acanhado.
- Prazer, Mr. Cock, administrador. Disse Pablo estendendo a mão. Tenho planos para você.
Pablo estava investindo pesado em vídeos amadores. Pagava uma mixaria para algumas garotas e as filmava fazendo sua mágica. Ele era um mago do cinema. Era o Hitchcock do cinema pornográfico amador brasileiro.
Às oito horas da manhã do dia combinado lá estava Alfredinho. Acanhado, mas estava lá. Pablo, ou Mr. Cock como gostava de ser chamado, chegara com a garota que filmaria a cena. Um mulherão.
Para Alfredinho, que de mulher pelada, só tinha visto sua mãe e as garotas do buraco69.net, aquela oportunidade era de ouro. Ganhou uma grana para fazer aquilo que nunca havia feito até aquele dia.
Aquela mulher era sensacional. Ela comandou o show. Alfredinho não teve que fazer muito esforço. Apenas deixou o seu astro trabalhar. E ele trabalhou como nunca tinha trabalhado antes. É aquele ditado, pra quem come ovo frito, comer caviar é sonho. Bom, pra quem só conhecia a própria mão, aquela garota era uma espécie de Sylvia Saint brasileira.
O nerd fez como o combinado. Mr. Cock gravou a cena e ao final, pagou a garota.
Vídeo editado e dois dias depois estava no ar.
Foi um sucesso. Nas primeiras horas mais de 500 downloads e 50 assinaturas novas por hora. Todo mundo queria prestigiar aquele fenômeno sexual. Começava a ficar conhecido como o Messias do pornô. O Rocco brasileiro. O cara que substituiria Kid Bengala.
Edinho chegou em casa e acessou o buraco69.net. Tinha acabado de chegar da casa de Silmara. Foi conhecer a família da namorada e saborear um delicioso strogonoff de frango, que a mãe de Silmara fez questão de cozinhar. Que garota. Não podia ter escolhido uma namorada melhor.
Logo de cara já viu o banner, aquela cena sensacional. Foi logo baixando. Vinte e cinco minutos depois o download estava concluído. E lá vai Edinho dar o Play no seu MidiaPlayer com as calças arriadas.
O filme começou e de cara ele reconheceu Alfredinho. Mas que porra esse gordo nerd tá fazendo ai? Pensou.
Quando Alfredinho tirou a calça, Edinho tomou um susto. Não conseguia parar de olhar para aquela cena. Algo na tela chamava a sua atenção. Olhou para sua cintura e para a tela. Para a cintura e para a tela novamente. O gordo nerd fora subestimado a sua vida toda.
De repente entra aquele mulherão em cena. A câmera pegava as suas pernas e ia subindo devagar. Estava apenas de biquini. Edinho pensou, pelo menos essa garota vai dar uma canseira no gordinho.
Ela já chegou ajoelhando em frente a Alfredinho no vídeo. A câmera se movimentou, subiu pela suas costas e deu a volta, focalizando o seu rosto.
- Puta que o pariu!!! Gritou Edinho.
Na sua frente, na tela do monitor, Silmara estava iniciando o que seria considerado por todos os Nerds, a maior foda de todos os tempos.
A essa altura surgiam milhares de janelas no MSN de Edinho, e seus scraps aumentaram consideravelmente.
Pois é. Nunca subestime aquele gordinho da sua escola. Ele pode ter um talento bem maior que o seu.
Posts Relacionados
Enquanto isso... by rafabarbosa
Grande Nogueira by rafabarbosa
Profissão by rafabarbosa
A emocionante história de Ricardo Tavarez, o pro-blogger que só queria ser amado. by rafabarbosa
Mil tretas by rafabarbosa





