Archive | Contos

22 February 2013 ~ 4 Comments

50 Tons de Cinza e Zumbis

Anastasia Steele estava debruçada sobre a cama, com as nádegas completamente vermelhas e doloridas. Ao seu lado, um satisfeito Christian Grey descansava displicentemente com o chicote ainda em sua mão direita.

- Muito bom, senhorita Steele. Sempre me surpreendendo.
- Obrigada, senhor. Servir bem para servir sempre. – Disse Anastasia mordendo o lábio inferior.
- Você sabe o quanto isso me provoca, senhorita Steele. Você não quer me provocar nesse momento, não é verdade?
- Claro que não, senhor Grey. Eu jamais faria isso.

Com um movimento rápido e preciso, Christian Grey girou Anastasia na cama, deixando-a de bruços. Preparava-se para penetrá-la novamente quando Taylor, seu motorista e braço direito entrou apressadamente no quarto vermelho da dor.

- O que é isso, Taylor? Você ficou maluco de entrar aqui?

Anastasia estava encabulada. Só conseguia cobrir a sua nudez. Seu subconsciente ficou envergonhado pelo pensamento que teve. Seria esse o seu primeiro ménage a trois? Sua deusa interior dava pulinhos de alegria com a expectativa. Porém, seus devaneios foram interrompidos pelo barulho de uma arma sendo engatilhada.

- Perdão, senhor Grey. Mas acho melhor o senhor e a senhorita Steele se vestirem. Precisamos sair imedi…

Antes de terminar a frase, Taylor foi empurrado para dentro do quarto, caindo de costas contra o armário repleto de pênis de borracha e vibradores. Por cima dele, o que antes era a empregada de Christian Grey, agora era um ser repugnante, com metade da jugular aberta e um olho pendurado. E sedenta por sangue.

- Anastasia, vá para o canto do quarto! – Berrou Christian Grey.

Sem entender nada e completamente assustada, a jovem Anastasia Steele correu para próximo do crucifixo onde tivera uma de suas primeiras experiências de submissão com Christian. Ficou atrás do móvel observando aquela cena que mais parecia um pesadelo.

Taylor estava com um zumbi em cima dele e precisava agir rápido. A arma caiu de sua mão com o impacto da queda e só tinha ao seu dispor os mais variados tipos de membros. Pegou um com aproximadamente 50cm e o enfiou no olho direito – o que ainda permanecia no lugar – daquele zumbi.

Christian veio por trás e aplicou um golpe meio de judô e meio de defesa pessoal naquele ser faminto por sangue e cérebro. Não calculou a força e acabou arrancando o membro superior da criatura. Porém, ela ainda seguia implacável tentando garantir um bom pedaço de Taylor.

- Sr. Grey, a minha arma! Está ali no canto!

Taylor agora afastava a cabeça do zumbi com aquele colossal pinto de borracha, repleto de sangue e pus.

- Você gosta de pistola, safada? Então toma!

Bang!

Com um único tiro, Christian Grey abrira a cabeça da sua falecida e apodrecida empregada, salvando seu motorista.

- O que diabos foi isso, Taylor?
- Sr. Grey, acho melhor sairmos daqui. Só se fala isso nos jornais. Parece que algum tipo de vírus atingiu a cidade. A Sra. Jones saiu para comprar algumas coisas e voltou nesse estado.
- Puta que pariu! Anastasia, você está bem?

Ana Steele estava encolhida atrás do crucifixo. Estava nua, pálida e com cada parte do seu corpo tremendo. Quando parecia que estava compreendendo o universo estranho daquele homem, mais uma bomba cai sobre si.

- Não sei. O que foi aquilo? Por favor, Christian, quero ir embora.
- Fique calma, meu bebê. Tirarei você daqui.

O mundo colorido e de conto de fadas que Anastasia Steele estava vivendo com Christian Grey estava prestes a mudar completamente. Ela só se perguntava se seria capaz de sobreviver a isso.

Continua.

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17 February 2013 ~ 0 Comments

A indignação de seu Osvaldo

Seu Osvaldo era um senhorzinho muito correto. Acordava todas as manhãs pontualmente às 4h35. Como dizia o seu pai, a partir de certa idade um homem não precisa dormir mais do que algumas poucas horas. Osvaldo pai sabia das coisas.

A rotina era uma só: acordava, tomava o seu banho, vestia blusa social e a calça jeans velha de guerra, um confortável e elegante sapato e tomava seu café preparado com a habilidade de um grande mestre.

Infelizmente, naquela promissora manhã de segunda-feira, seu Osvaldo reparou que se esquecera de comprar pó de café. A despensa estava vazia, fruto de um provável lapso de memória, algo que estava acontecendo com uma frequência maior do que a que seu Osvaldo gostaria de admitir.

Não tendo alternativa, saiu de casa a procura de um bom copo de pingado.

Poucas quadras de caminhada e seu Osvaldo reparou que havia uma pequena aglomeração de pessoas, uma atrás da outra no que se convencionou chamar de “fila indiana”. Seu Osvaldo adorava uma fila da mesma forma que adorava os seus netos, principalmente o Paulinho. Com apenas 9 anos o garotinho já era o destaque do time dente de leite da escola. Seu Osvaldo só gostava mais de café do que de filas, e algo lhe dizia que aquela fila só podia terminar em um delicioso pingado quentinho de expresso.

Não pensou duas vezes para se acomodar atrás da última pessoa.

As horas foram passando e seu Osvaldo percebeu que seu organismo necessitava daquele vital liquido negro, bebido preferencialmente enquanto ainda fumegava. Resolveu esperar mais alguns minutos, mas foi inevitável.

Aproveitou a oportunidade em que uma rede de TV estava no local e resolveu bradar a plenos pulmões qual era a sua vontade naquele momento:

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28 December 2012 ~ 11 Comments

Alfredinho

Ele era o motivo de chacota na escola. Gordinho e cheio de espinhas, Alfredinho passava os dias lendo quadrinhos, jogando RPG e discutindo qual era a melhor trilogia: Senhor dos Anéis ou Star Wars. Era o que se chamava de Nerd. No sentido mais puro da palavra. Durante a noite, nos chats, fóruns, twitters e MMORpg’s da vida, ele era Alundil, o Elfo.

Alfredinho sempre foi o motivo das piadas de Edinho, o popstar da galera. Forte, loiro e rico, Edinho era o centro das atenções. Os meninos o invejavam. As garotas o desejavam e ele sabia aproveitar essa fama. Beijos depois da aula e alguns amassos no muro da escola não eram raros. Mas ele não podia topar com o gordinho. Sempre com uma piadinha na ponta da língua. A mais clássica era levantar quando Alfredinho sentava. Aquele movimento de “ser jogado pra cima”. Quem nunca fez isso?

Mas o futuro tinha planos para os dois. Alfredinho, entre um festival de Cosplay e uma partida de D&D, estudava e lia bastante. Tinha um futuro promissor, como era de se esperar. Já Edinho, no tempo livre, ficava na internet buscando “mulheres com seios enormes” no Google e tentando ver suas amiguinhas peladas pela webcam.

Os anos foram passando e Alfredinho emagreceu. Sabe aquela fase em que os homens crescem de uma vez? Alfredinho cresceu e a gordura acumulada foi melhor distribuída. Não era o que podia se chamar de magro, mas também não era mais o gordinho nerd da turma. Bom, ele ainda era nerd, mas não tão gordinho assim.

E lá foi Alfredinho cursar a sua faculdade de Ciências da Computação enquanto Edinho passava em 100º lugar excedente no curso de Educação Física de uma tradicional faculdade particular.

Mais forte do que nunca, Edinho logo se tornou o centro das atenções na sua nova sala. Ele era bonito, tenho que confessar. Se fosse mulher, eu daria pra ele.

Alfredinho não chamava a atenção. Ninguém reparava nele. Em uma sala repleta de nerds, era difícil algum deles chamar a atenção.

Mas como é o costume das faculdades, era chegada a hora do trote. Edinho como era descolado e pra frente, foi poupado no seu trote. Só teve a cabeça raspada e o rosto pintado. Nesse dia, Edinho conheceu Silmara. Uma veterana gostosa da sua faculdade. Gostosa é pouco. Eu só não descrevo a Silmara nesse conto porque não pretendo ter uma ereção.

A química foi imediata. Ela já tinha a ficha completa de Edinho. Sabia que o pai era deputado e que ele morava em um dos mais tradicionais bairros da cidade. Ela não era interesseira, longe disso, mas queria um futuro garantido. Ali começou um romance que prometia. Vinte minutos depois Silmara já estava sem a calça de ginástica que deixava sua bunda ainda mais definida e Edinho sem a sua bermuda Adidas no vestiário da faculdade. Saíram de lá namorando. Apaixonados.

Já o nosso nerd favorito, Alfredinho, estava sendo exposto às mais tenebrosas formas de tortura que um calouro pode passar. Os alunos de Ciências da Computação eram o alvo preferido dos veteranos. Coitados, sempre eram humilhados das piores maneiras.

Durante o trote, um grupo de alunos arrastou o mais tímido dos calouros – Alfredinho – para um canto mais afastado e tiraram a roupa do pobre rapaz. Ele queria chorar, mas estava na faculdade. Aguentou bem. Não entendeu a cara de espanto dos outros alunos ao verem pelado. Era uma mistura de terror, admiração e curiosidade. Ficaram surpresos ao ver que Alfredinho tinha um enorme diferencial.

No meio desses alunos estava Pablo. Para vocês ele não é ninguém, mas para quem curte uma putaria virtual, ele era simplesmente o dono do maior portal de pornografia brasileiro. Uma mente brilhante. E dono de um negócios em franca expansão, afinal, os seus vídeos faziam sucesso e o número de assinaturas do site crescia assustadoramente. Edinho assinava. Se não me falha a memória, foi um dos primeiros a garantir o acesso ao vasto material de Pablo.

Pablo viu em Alfredinho uma mina de ouro. Iria aproveitar aquele nerd. Pensava em transformá-lo em um homem. O garoto tinha potencial.

- Ai, gordinho. Tu conhece o buraco69.net?
- Conheço sim. Disse Alfredinho acanhado.
- Prazer, Mr. Cock, administrador. Disse Pablo estendendo a mão. Tenho planos para você.

Pablo estava investindo pesado em vídeos amadores. Pagava uma mixaria para algumas garotas e as filmava fazendo sua mágica. Ele era um mago do cinema. Era o Hitchcock do cinema pornográfico amador brasileiro.

Às oito horas da manhã do dia combinado lá estava Alfredinho. Acanhado, mas estava lá. Pablo, ou Mr. Cock como gostava de ser chamado, chegara com a garota que filmaria a cena. Um mulherão.

Para Alfredinho, que de mulher pelada só tinha visto sua mãe e as garotas do buraco69.net, aquela era uma oportunidade de ouro. Ganhou uma grana para fazer algo que nunca havia feito até aquele dia.

Aquela mulher era sensacional. Ela comandou o show. Alfredinho não teve que fazer muito esforço. Apenas deixou o seu astro trabalhar. E ele trabalhou como nunca havia trabalhado antes. É aquele ditado, pra quem come ovo frito, comer caviar é sonho. Bom, pra quem só conhecia a própria mão, aquela garota era uma espécie de Sylvia Saint brasileira.

O nerd fez como o combinado. Mr. Cock gravou a cena e ao final, pagou a garota.

Vídeo editado e dois dias depois estava no ar.

Foi um sucesso. Nas primeiras horas mais de 500 downloads e 50 assinaturas novas por hora. Todo mundo queria prestigiar aquele fenômeno sexual. Alfredinho começava a ficar conhecido como o Messias do pornô. O Rocco brasileiro. O cara que substituiria Kid Bengala.

Edinho, por sua vez, chegou em casa e acessou o buraco69.net. Tinha acabado de chegar da casa de Silmara. Foi conhecer a família da namorada e saborear um delicioso strogonoff de frango que a sogrinha fez questão de cozinhar. Que garota! Não podia ter escolhido uma namorada melhor.

Logo de cara já viu o banner que ocupava metade da tela exibindo aquela cena sensacional. Foi logo baixando. Vinte e cinco minutos depois o download estava concluído. E lá vai Edinho dar o Play no seu MediaPlayer com as calças arriadas, o rolo de papel higiênico do lado e uma ereção instantânea.

O filme começou e de cara ele reconheceu Alfredinho. Mas que porra esse gordo nerd tá fazendo ai? Pensou.

Quando Alfredinho tirou a calça, Edinho tomou um susto. Não conseguia parar de olhar para aquela imagem. Algo na tela chamava a sua atenção. Olhou para sua cintura e para a tela. Para a cintura e para a tela novamente. O gordo nerd fora subestimado a sua vida toda. Edinho agradeceu por não ter comprado um monitor 3D.

De repente entra aquele mulherão em cena. A câmera pegava as suas pernas e ia subindo devagar. Estava apenas de biquini. Edinho pensou “pelo menos essa garota vai dar uma canseira no gordinho”.

Ela já chegou ajoelhando em frente a Alfredinho no vídeo. A câmera se movimentou, subiu pela suas costas e deu a volta, focalizando o seu rosto.

- Puta que o pariu!!! Gritou Edinho.

Na sua frente, na tela do monitor, Silmara estava iniciando o que seria considerado por todos os Nerds a maior foda de todos os tempos.

A essa altura surgiam milhares de janelas no MSN de Edinho e seus scraps aumentaram consideravelmente.

Pois é. Nunca subestime aquele gordinho da sua escola. Ele pode ter um talento bem maior que o seu.

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12 December 2012 ~ 0 Comments

O fim

Acordou como em todos os outros dias. Se levantou, deu aquela mijada, escovou os dentes, tomou um banho e saiu para trabalhar.

As ruas estavam mais estranhas do que o normal. Algumas pessoas corriam peladas, seguravam cartazes com frases que ele não se importa e outras brigavam sem o menor motivo. Algumas até estavam segurando armas e invadindo casas e lojas, mas ele havia deixado de se importar ou perceber essas coisas há muito tempo. Estava em um total e completo estado de inércia.

Chegou ao trabalho no horário normal, como fazia de segunda a sexta. A única coisa que chamou a sua atenção foi o fato de que, estranhamente, o estacionamento estava vazio. Não teve que parar o carro longe. Estacionou em sua vaga preferida, pegou a sua maçã, enrolou os fones de ouvido, dobrou a jaqueta e a jogou no ombro e se dirigiu ao prédio.

Havia pouca gente por lá. Até o Seu Antônio, porteiro há mais de 35 anos e que se orgulhava de nunca ter faltado um dia sequer, não estava por ali. Essa era uma novidade. Isso era algo fora do padrão. Mas até mesmo os grandes heróis precisam de um dia de folga, não é mesmo?

Pegou o elevador do meio, como sempre. Nos fones de ouvido tocava o novo CD da sua banda preferida. Na rádio do elevador, alguém narrava os acontecimentos bizarros daquele dia, mas ele estava tão entretido em seu próprio mundo que ao chegar no 12º andar não havia escutado nada. Exceto metade da sua música favorita daquele álbum.

Saiu do elevador e passou na máquina de café. Pegou o seu cappuccino com chocolate e esperou que o Almeida chegasse de surpresa, como sempre fazia. O Almeida sempre aparecia na máquina de café nesse horário reclamando do emprego, da esposa, dos filhos, do time e até de si mesmo. Às vezes ele estava no banheiro, deveria aparecer na máquina daqui a pouco. Seguiu para a sua sala.

Apenas o seu chefe estava por lá. Isso não era nenhuma novidade, ele era sempre o primeiro a chegar e o último a sair.

- Achei que você ficaria em casa hoje, como todo mundo.
- Alguém tem que trabalhar aqui, né, chefe?
- Verdade. Mas se quiser ir embora, tá liberado.
- Ah, valeu. Mas não tem nada pra fazer em casa não.
- Nem a sua família?
- Eles estão bem.
- Ok, então.

Ligou o computador e pela primeira vez se deu conta de que, curiosamente, era o dia 12/12/2012. Mas logo em seguida abriu o Excel e foi terminar suas planilhas com o balanço anual da empresa.

Inércia. Essa era a palavra do dia, da semana, do mês e dos últimos anos.

Digita uma fórmula, formata uma célula, aperta enter e parte para a próxima.

Estava tão desligado do mundo que não percebeu quando o dia ficou tão claro quanto o sol visto de perto. Estava tão desligado que nem ao menos se deu conta de que havia acabado de morrer.

Pelo menos conseguiu terminar a planilha.

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19 October 2012 ~ 0 Comments

Enviando uma mensagem

Já havia algum tempo que ele pensava que podia se comunicar com eles. De certa forma,  sempre acreditou nisso e em um impulso característico daqueles sonhos infantis, inventou uma máquina que na sua cabeça permitiria esse tipo de contato.

Era basicamente um Pense-Bem antigo, um roteador wi-fi com uma latinha de Coca-Cola aberta em forma de “guarda-chuva” para ampliar o sinal e uma agenda eletrônica antiga da Casio. De acordo com o seu avançado conhecimento em eletrônica, era o bastante para conseguir enviar uma mensagem.

E por muito tempo ele enviou mensagens. No começo, diariamente.

“O L Á  T E M  A L G U É M  A Í”?
“O I”.
“T U D O  B E M  C O M  V O C Ê S”?

Não recebia nenhuma resposta. Nada. Era como se estivesse mandando as mensagens para o mais absoluto e completo nada. O que de certa forma era verdade, convenhamos. Mas ele não sabia (ou não queria acreditar) nisso. Estava determinado a se comunicar.

Os amigos não acreditavam que ele teria sucesso.

- Cara, se não te responderam até agora, é porque simplesmente não querem falar com você ou não existem.

- Existem. Eu sei que existem.

- Tanto faz, cara. Só não quero ver você decepcionado com isso depois.

- Não me decepcionarei. Eles vão responder. Eu acho.

Ele continuou tentando por muito tempo. Eventualmente, claro, reduziu a frequência das mensagens. Não eram mais diárias. Agora havia um espaço de tempo. Porém, a resposta que ele tanto esperava nunca chegava. E isto o estava desanimando.

Dizem que enquanto você acredita em algo, você tenta de tudo para conseguir. Mas, a partir do momento em que você deixa de acreditar, é questão de tempo até deixar pra lá e se acostumar com a ideia de que essa coisa jamais acontecerá.

Era isso o que estava acontecendo.

- E aí, cara! Desistiu de tentar se comunicar?

- Ainda não. Mas acho que não querem falar comigo.

- Você acha? Bom, há quem tenha certeza.

- Infelizmente.

Então, em uma manhã de sábado, ele simplesmente deixou de acreditar que um dia receberia uma resposta.

- Desistiu?

- Não. Só deixei de acreditar que um dia me responderia.

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25 May 2011 ~ 18 Comments

Coragem

Depois de muito tempo pensando em como fazer isso, finalmente ele tomou coragem. Vestiu-se com sua camisa favorita, a velha calça jeans surrada e o All-Star desbotado. Marcaram de se encontrar no mesmo lugar de sempre. Mas hoje seria diferente. Hoje aquele lugar teria um significado especial.

Ele chegou mais cedo, como de costume. Enquanto ela não aparecia, ele tuitava pelo celular. Não era segredo que estava ansioso. Qualquer um que o visse perceberia. Afinal, há mais de um ano ele vem planejando como fazer isso. Já esteve perto de fazer em outras ocasiões, mas sentia que não era o momento certo.

Quando terminava de mandar um último tweet, olhou para o lado direito e lá vinha ela. Coincidentemente ou não, com a mesma roupa que vestia no dia que se conheceram pessoalmente. A camiseta da banda favorita, a calça jeans desbotada e o All-Star vermelho. A sensação foi a mesma de quando a viu pela primeira vez: era, de fato, a garota da sua vida.

- Tenho que te falar algo…

Os dois disseram a mesma frase, ao mesmo tempo. Essa não era a primeira vez que isso acontecia.

- Fala primeiro. Disse a garota.

Ele respirou fundo. Preparou-se muito pra isso. Não ensaiou. Isso não é algo que se ensaia. As mãos estavam trêmulas, mas ele tentava disfarçar. As pernas bambearam de leve e o coração começou a bater mais rápido. Não dava pra fugir. Era hoje. Tinha que ser hoje. E então ele começou a falar.

- Não tem um jeito fácil de falar isso. Bem, pode até ser fácil pra outras pessoas. Mas você sabe como eu sou. Então, por favor, só escuta. Desde o dia que a gente se conheceu, eu tive certeza absoluta que você era a garota ideal pra mim. Comecei a ter essa certeza enquanto a gente ainda só se falava apenas por internet, mas, depois daquele dia, eu tive certeza. Eu não consigo nem descrever o que senti quando te vi pessoalmente pela primeira vez, só posso dizer que foi algo forte. E se eu me arrependo algo na minha vida, foi de não ter pelo menos tentado te beijar aquele dia. Tem mais de um ano que eu venho tentando te falar o quanto eu gosto de você, o quanto eu quero ficar com você, o quanto você significa pra mim. Tá certo, eu poderia facilitar isso tudo e simplesmente dizer um “quero ficar com você”, mas eu sempre complico as coisas. Então, já que não tenho coragem o bastante pra dizer isso ou simplesmente tentar te beijar… Só queria que você soubesse disso.

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Ele parecia ter tirado um peso enorme das costas e do coração. Depois de uns dois minutos, ela disse com a voz baixa:

- Por que você só me disse isso hoje? Justamente hoje?

- Porque hoje faz um ano que a gente se viu pela primeira vez.

- Eu também te falei que queria te contar algo.

- Eu sei. O que você queria me contar?

- Estou namorando.

- …

 

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13 April 2011 ~ 10 Comments

Conselhos amorosos

Inexplicavelmente, aquele cara que não pegava ninguém na escola havia se tornado uma espécie de guru dos relacionamentos. O recreio já não era mais o mesmo. Sempre havia alguém sentado ao lado dele perguntando o que deveria fazer ou responder durante as investidas de outras pessoas. Com a maior calma do mundo ele dava conselhos. Na maioria das vezes, conselhos certeiros.

Até que um dia a garota por quem ele era apaixonado se sentou ao seu lado. Ela queria saber como dizer a um garoto que estava apaixonada por ele. Pela primeira vez em semanas ele não soube o que dizer de primeira. Só sentia uma dor no peito. Uma dor que nunca havia sentido. Mesmo assim ele tentou cumprir o seu papel, afinal, tinha mais gente pra conversar e ele não queria perder a confiança das outras pessoas.

- Dizer pra uma pessoa que se está apaixonada por ela é sempre complicado. Você nunca sabe como ela vai reagir.

- Você já fez isso? Digo, se declarou pra uma garota?

- Já. Não foi a melhor experiência da minha vida.

- O que aconteceu?

- Nada demais. Ela disse que não sentia o mesmo.

- E por que isso foi tão ruim?

- Porque, acredito eu, você não sabe como é ruim dormir e acordar todos os dias pensando em como seria bom estar com essa pessoa. Poder dizer um “eu te amo” e ganhar um beijo como resposta. Não precisa nem escutar um “eu também”. Algumas coisas a gente consegue entender só pelo olhar.
- Sabe, é realmente foda ficar alimentando um amor por uma garota que simplesmente ignora a sua existência. Então, quando você resolve mostrar pra ela que existe e que gostaria de fazer o possível e o impossível pra vê-la feliz, e ela te diz não, é como se você estivesse sendo fuzilado por um exército inteiro. No final, só resta um buraco enorme.

- Nossa. Realmente nunca passei por isso.

- Pois é… Eu te amo.

- Eu também.

- O que?

- Viu, não foi difícil. Você se declarou e eu também.

E naquele recreio em específico, no dia 13 de abril de um ano que ninguém se lembra direito, todo o colégio viu aquele cara, que ninguém lembra o nome, o famoso “o conselheiro amoroso” ficar com uma garota.

Dizem que eles estão juntos até hoje. Mas, bem, você sabe como é essa coisa de amor…

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02 April 2011 ~ 5 Comments

Algo que você não vai gostar…

- Fiz uma coisa que você não vai gostar…

- Ih, lá vem. É o que eu to pensando?

- Não sei. O que você tá pensando?

- Que você ficou com a menina lá. Te falei que não era pra fazer isso. Maior furada.

- Não. É outra coisa. Mas to com tanta vergonha de te falar…

- Fala. Já começou, termina pelo menos.

- Sério, eu tenho certeza que você não vai gostar.

- Fala logo.

- Tá bom. Mas, pra não ter que agüentar o seu olhar de desaprovação, você pode só… escutar? Tipo, fechar os olhos e tal?

- Que idiota. Mas, vai. Faço isso sim.

Ela fecha os olhos e ele, sem pensar duas vezes, a beija. A impressão que ele teve é o que o mundo simplesmente parou por mais de duas horas. Mas não se passaram nem dez segundos.

- Eu falei que você não ia gostar…

- …

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01 April 2011 ~ 4 Comments

Amor de verdade

- Olha, eu te amo.

- Hahahaha. Primeiro de abril, né?

- Não. Eu te amo. Sempre te amei. Tá, nem sempre. Desde que a gente se conheceu e tal. Só não tinha coragem de falar.

- Não é primeiro de abril mesmo?

- Bem, é. A data. Mas não é pegadinha.

- Não sei o que dizer.

- Bom, não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse.

Então, ele saiu se sentindo um campeão. Eles não se beijaram. Na verdade, ele nem ao menos tentou, pois sabia que naquele momento, essa não era a coisa certa a se fazer. Quem sabe daqui a alguns dias? Mas, pelo menos, agora ela sabe por que ele sempre esteve presente. Porque ele sempre se preocupou.

Agora ela sabe.

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10 June 2009 ~ 1 Comment

Petrônio – O craque

O menino Petrônio

O menino Petrônio

O sonho do menino Petrônio era jogar pela seleção brasileira de futebol. Desde muito novo já esboçava os seus primeiros passos no campinho de terra do aglomerado onde morava. Seu futebol era diferente. Era moleque, brincalhão. O verdadeiro futebol arte.

O tempo passou e Petrônio cresceu. Agora era um adolescente e gostava de ser chamado de Pepê. Ainda dominava como ninguém uma bola de couro. Praticamente brincava em campo com os outros garotos.

E não era só no campo que ele brincava. Também adorava brincar com a namorada no quarto. Numa dessas brincadeiras, Pepê enfiou o Pipi sem camisinha e encomendou um bonequinho.

Hoje, aos 24 anos, Pepê pesa 104kg e trabalha no açougue do seu Gilberto.

Era evidente que o futuro de Pepê estava na bola.

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