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Questão de ponto de vista

Esse é um relato em primeira pessoa de uma garota comum, como qualquer outra.

As garotas da minha idade são garotas normais. Acordam com mau-hálito, mijam, dão um peidinho, escovam os dentes, tomam banho, trocam de roupa e vão trabalhar. Algumas têm carro, outras vão de ônibus e algumas até vão a pé, quando a distância não é grande. Garotas normais como qualquer outra.

As garotas da minha idade vão para baladinhas, micaretas, shows, faculdade, viagens com amigos, enfim, se divertem. Ah, essas viagens, essas baladinhas, essas micaretas, esses shows e essas faculdades. Tem cada rapaz ali que, meu Deus, fico até sem palavras. Também existem os feios, mas com um bom whisky, ficam até simpáticos. Claro, nenhum deles chega aos pés do Rafael Barbosa, mas eles tentam.

As garotas da minha idade conhecem e conversam com rapazes. Isso é natural do ser humano. Toda garota comum conversa com rapazes, interage, troca telefones, abraços, apertos de mão e carinhos. Algumas vezes essa interação vai além, mas já já explico.

Algumas garotas pregam o “agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”, e saem fazendo a limpa nas baladinhas, boates, shows, micaretas e viagens. Pegam todos e fazem de tudo. São garotas normais que têm necessidade de suprir os seus desejos e impulsos sexuais. Tudo bem, também faz parte do ser humano.

Essas garotas, que fazem tudo isso, entre quatro paredes com os seus rapazes, também fazem de tudo. Gostam que puxe o cabelo, gostam de tapa na bunda, gostam de chupão, gostam de chupar, gostam de ficar por cima, gostam de ficar de quatro, gostam de xingar e serem xingadas e por incrível que pareça, fazem tudo isso sem pedir nada em troca. Nem o telefone do cara, ás vezes. Só por pura diversão.

Agora quando eu faço isso, eu sou uma puta. E sou vista com outros olhos por essas mesmas garotas. Eu também curto baladinhas, eu também curto boates, eu também curto shows, eu também curto micaretas e eu também curto viagem com os amigos. Eu sou solteira e ninguém vai me segurar, sim. Mas enquanto as garotas fazem isso com o dinheiro que o papai dá de mesada, eu faço isso com o dinheiro que eu ganho no meu trabalho. Não sabe qual é o meu trabalho? Eu explico.

Meu trabalho é chupar, ser chupada, dar de quatro, dar de lado, dar por cima e dar por baixo. Meu trabalho é gostar que puxem o meu cabelo, que me dêem tapa, que me dêem mordidinhas, que me xinguem e que me peçam pra xingar. O meu trabalho é fazer tudo isso que as garotas normais da minha idade fazem. Meu trabalho é ser garota de programa.

A sua filha faz isso tudo. Mas ela é santinha. Eu faço isso e sou prostituta. Essa é a minha profissão.

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Tema “A Prostituição pelo ponto de vista da prostituta”.
Sugestão do Super Wallace: Snes-Classics/SuperWallace.

Grande Nogueira

Daí que havia esse amigo meu, o Nogueira. Estudava na mesma escola que eu, desde que entrei lá. Mas só fui começar a conversar pra valer com ele muito tempo depois.

O Nogueira era o típico cara que todo mundo batia. Era magrelo, narigudinho e com cara de bobão. E ainda era nerd, o que piorava a situação dele uns 300%, levando-se em conta que o resto da escola era composto de metidos a valentões. Mas sabe aquela história de superação? Que no final o cara sai vencedor, conquista a menina e tem um final feliz? Bom, não aconteceu isso com o Nogueira. (Cabe aqui fazer o tracadilho recorrente que o Nogueira era alvo: OHH Nogueira? Oi. Pega na minha e cheira! haha.)

Não que tenha sido aquela superação, mas Nogueira conseguiu fazer com que, pelo menos, não abusassem mais dele. Em uma das muitas vezes que alguém tentou se aproveitar da fragilidade do menino, Nogueira deixou de ser um cagão e resolveu encarar. Sem medo, peito no peito. E quando foi atacado, revidou e saiu vitorioso na briga.

Desse dia em diante, todo mundo hesitava sempre quando pensavam em abusar do Nogueira. Aquele Nogueira… peça rara o menino.

Rocky Balboa Jr.

Certas tragédias são anunciadas. Aquela já estava marcada fazia tempo. Era inevitável.

De um lado, Afonsinho. Menino magrinho, do tipo que se pode até contar as costelas enquanto despreguiça. Mas ele era ágil. E como era. Corria como ninguém. Carlão que o diga. Ah o Carlão! Era o valentão da escola. Roubava o Fandangos dos mais fracos, roubava os cards de Magic dos nerds e desprezava qualquer outro garoto menor e mais fraco que ele. Desprezava não seria o termo. Ele destruia. Se ele fosse um personagem de Street Fighter, seria o Zangieff.

Mas Carlão nunca conseguiu pegar Afonsinho. O garoto corria. Parecia uma pena sendo carregada pelo vento. Carlão sabia que mais dia menos dia, pegaria Afonsinho na porrada, e ele machucaria e muito o pobre magrelo.

Em mais um recreio, logo após roubar os tazos de Fernandinho, roubar a coxinha de Catupiry de Fred e ainda roubar um beijo de Mariana, Carlão viu de longe o pequeno e indefeso Afonsinho. Carlão parecia estar possesso. Saiu empurrando todo mundo. O melhor amigo de Afonsinho, o Orelha, o grande orelha. Em todos os sentidos, olhou pra Afonsinho e disse:

- Lá vem merda.

Não deu outra. Carlão já chegou chutando o tabuleiro de D&D de Afonsinho. Nem o D20 sobrou pra contar história. Saudoso D20.

Por ter um excelente reflexo, Afonsinho pulou para o lado e olhou assustado. Carlão deu um berro dizendo: Hoje eu te pego magrelo. Mas antes de terminar a palavra “hoje”, Afonsinho já estava longe, entrando na sala de aula e sentando na sua cadeira perto da professora.

Não demorou muito e um bilhetinho chegou a sua mesa:

Vou te dar uma chance. Amanhã depois da aula, perto da barraca do Seu Zé. Só nós dois. Se eu ganhar, você me dá seu lanche e seu dinheiro todo dia. Se você ganhar, eu te deixo em paz.

Ao ler o bilhete, as finas e peladas pernas de Afonsinho tremeram. Mas ele sabia que era inevitável. Ele teria que encarar Carlão. Teria que colocar toda a sua força, destreza e inteligência a prova. Estava prestes a rolar os dados, e tudo que ele menos desejava era um erro crítico.

Ele apenas escreveu no bilhete: Desafio aceito. Estava lançada a sorte.

Você sabe como é escola, as notícias correm rápido. Todo mundo já estava sabendo do confronto. Orelha foi o primeiro a se manifestar. Era um amigão, diga-se de passagem, mas ele sabia das coisas:

- Cara, sabe que eu te acompanho em tudo. A gente é amigo desde que me entendo por espermatozóide, mas caramba. Enfrentar o Carlão? Você quer eu leve as más notícias para a sua mãe?

- Esse é o meu fardo, Orelha. Eu aceito o meu destino. Disse Afonsinho com um ar de reflexão.

- Afonso Fernando de Oliveira. Deixa eu explicar as coisas de uma forma que você vai entender. O Carlão é o Apollo Doutrinador, você é o Garanhão Italiano, mas sem músculos. E sem o Italiano. Pra falar a verdade, nem garanhão. O cara vai te doutrinar.

- Em todos os Rockys, o Balboa sempre ganhou. Disse Afonsinho tentando reverter a situação e consolar o amigo.

- Tudo bem, Afonso. Eu tenho um mal pressentimento em relação a isso. Mas como você disse, o fardo é seu. Que a força esteja com você.

E assim foi. Afonsinho foi para casa. Tinha 24 horas para treinar, pensar e formular uma estratégia de combate. Por coincidência, ou não, estava passando Rocky III na tv a cabo.

Não poderia ter filme melhor. Carlão estava mais para Clubber Lang do que para Apollo Creed. Era lá e cá. Rocky treinava ao som de Eyes of Tiger e Afonsinho acompanhava cada passo. Durante a luta, tentava assimilar cada golpe que Rocky desferia. Mas como todo mundo sabe, Rocky apanha em todos os filmes. Só bate nos 5 minutos finais e ganha.

Afonsinho começou a repensar a sua decisão. Resolveu jogar um pouco de World of Warcraft para esfriar a cabeça. Seu primo, Alfredinho estava online. Ele era seu conselheiro. Entedia das coisas. Mas nenhuma palavra era suficiente. O fim estava próximo.

Chegou o grande dia. A escola estava empolvorosa. O assunto era a luta. Para alguns, Afonsinho estava para Jake La Motta, assim como Paris Hilton estava para Maryl Streep. Ou seja, estava fodido.

Alguns poucos garotos soltavam uma ou outra frase de apoio. Alguns fizeram até vaquinha para comprar uma coroa de flores. A morte era certa. Carlão era invicto na escola. O cara era uma lenda. Com 7 anos de idade, dizem que matou um PitBull com uma mordida. Coitado do pobre cão.

Pindoca, que era o apostador da galera, dizia que estava 6 para 1. Era Carlão na cabeça. Iria faturar alto naquele dia.

Os minutos custavam a passar. Cada volta do ponteiro era uma tortura para Afonsinho. Sua vida foi passando diante de seus olhos durante todo o dia. Lembrou-se do seu primeiro video game. Um Master System III, que veio com Sonic. Lembrou do seu quase primeiro beijo. Poxa. Morreria virgem. De boca e de outras coisas. Lembrou do seu primeiro Action Figure de Star Wars. Um excelente exemplar de Han Solo, feito em chumbinho da melhor qualidade. Só faltava falar, de tão real.

Fez um pequeno testamento, deixando tudo para Orelha, que a essa altura já não tinha mais as unhas dos dedos. Roera todas.

- Cara, ainda dá tempo de desistir. Você não é um covarde. Isso é sobrevivência. Pensa bem. Você pode perpetuar a espécie. Não vai dar mole.

- Orelha. O fim está próximo. Mas não me entregarei sem luta. Se eu morrer, morrerei lutando. Eu represento a esperança de cada aluno maltratado pelo Carlão. Para eles, eu sou Luke Skywalker, a esperança da Aliança Rebelde.

Sem dúvida. Os alunos que sempre foram maltratados por Carlão olhavam com admiração para Afonsinho. Até tiraram as medidas do garoto para fazer uma estátua em sua homenagem.

O sinal tocou. Era chegada a hora. Afonsinho caminhava tranquilamente, rumo a sua Fenda da Perdição.

O clima era fúnebre. O fim era próximo.

No local combinado, em frente a barraca do Seu Zé, já estava formada a rodinha. Coincidência ou não, havia uma ambulância estacionada do outro lado da rua.

Carlão, com uma cara mais assustadora do que nunca, já tinha tirado sua camisa do uniforme e ostentava uma camiseta rasgada nos braços, com um enorme Eddie e um Iron Maiden de todo tamanho. Mais valentão impossível.

Afonsinho, o nosso herói, ou quase isso, mirradinho como só ele, estava com sua camisa Nerd Power. Se era pra morrer, que fosse com classe e estilo.

- É magrelo, de hoje você não passa. Não vai ter corridinha nem nada do tipo. Carlão soava mais ameaçador ainda, quando falava nesse tom.

- Cara, whatever. Curto e grosso o tal do Afonsinho.

E Pindoca soou o gongo. Ou uma batidinha com um espetinho na grade da escola.

Carlão foi furioso para cima de Afonsinho. Deu um soco no ar e Afonsinho se esquivou. Sentia que estava prestes a tomar uma surra homérica. Algo nunca antes visto.

Carlão veio de novo, e Afonsinho usou mais uma vez o seu reflexo. Santo Guitar Hero, pensou Afonsinho. Se não fosse pelo jogo, não conseguiria prestar tanta atenção às investidas de Carlão. Mas bem no meio de seus pensamentos, sentiu uma pancada no lado esquerdo do rosto. Nesse momento tudo ficou escuro. Orelha, que estava na frente da multidão, se transformou em uma espécie de pintura de Salvador Dali. Ficou deformado, meio derretendo. As vozes ficaram distorcidas e o chão ficou próximo. Muito próximo. Tão próximo que seu nariz encostou no passeio sujo.

Um cruzado de direita de Carlão. Atingiu bem em cheio o rosto de Afonsinho. Nunca sentiu uma dor tão forte. Mas isso o fez acordar. Claro, depois de uns 3 minutos. Com esse soco, o Nível de Experiência de Afonsinho aumentou. Tipo uns 5 níveis. Era hora de mostrar que não era tão fraco assim.

Lembrou-se de Paulie falando com Rocky durante a luta contra Ivan Drago. Acerte o do meio. Afonsinho estava enxergando três Carlões. Foi para cima de Carlão e deu um soco. Aliás, deu O soco. O maior soco da sua vida. Concentrou toda a força que tinha nesse soco. Parecia coisa de cinema. Sua mão seguindo em direção ao nariz de Carlão. Atrás da sua mão, o rastro. Estilo Bullet Time do Matrix. De repente o rosto de Carlão foi se afastando. Afastando. E tum. Tomou uma joelhada na boca do estômago.

Sentiu a sua merenda querendo sair pela boca e por outros lugares. Estava fadado a morrer, coitado.

Caiu no chão. Encolhido. Só queria que aquilo terminasse.

Olhou para o lado e viu Orelha. Orelha coitado, não sabia muito bem o que estava fazendo, mas foi em direção a Carlão, que estava de costas. Durante a corrida, Orelha pulou e como se fosse um lutador da WWE, que era fã, e colou os dois pés nas costas de Carlão. Coitado, Carlão deu dois passos para frente, virou-se para Orelha e tascou-lhe um sopapo na orelha. Parecia que uma granada tinha explodido perto da sua cabeça. Orelha não escutava nada. Literalmente.

Aquela cena parece que comoveu as vítimas de Carlão. De repente um bando de pequenos e indefesos garotos foram pra cima do valentão. Parecia aquelas cenas épicas de filmes, onde um exército vai de encontro ao outro. No nosso caso, era um bando e magrelos e nanicos indo pra cima de um brutamontes.

O primeiro tomou uma pesada na cara e caiu no chão. O segundo uma cotuvelada no nariz. Quando viu o sangue, desmaiou. O terceiro hesitou. Mas essa distração ajudou Afonsinho, que não estava morto nem nada. Levantou e por trás acertou um chute no meio das pernas de Carlão. Ali era a zona proibida colega. Ninguém aguentava uma pancada naquela área. Se existia o tal do Calcanhar de Aquiles, era uma grande lorota. Deveria se chamar Bago de Aquiles.

Carlão gemeu de dor, se ajoelhou e sentiu aquela dor típica logo acima do abdômen. Queria chorar. Mas nem isso conseguiu. Logo em seguida tomou mais uma pancada, dessa vez na nuca. Era Orelha. Completamente surdo, mas ainda sim deu uma piaba em Carlão.

Aquela foi a deixa para todos os outros garotos pularem em cima de Carlão. Ele parecia uma açucarada e saborosa bala e os outros alunos um bando de formiga sedentas por açúcar.

Depois de algumas pancadas, Carlão começou a chorar. Se levantou e saiu correndo.

Nas calças, uma pequena mancha marrom. Quando a turma viu, caiu na gargalhada.

Naquele dia Afonsinho se tornou um herói. Venceu o seu desafio. A sua prova. Saiu de lá com um roxo no olho mas consagrado.

Já Carlão, coitado. Ficou com tanto medo e tanta vergonha que pediu para mudar de escola. Hoje em dia bate em outros molequinhos do outro lado da cidade. Não toma jeito, aquele mequetrefe.

Alfredinho

Ele era o motivo de chacota na escola. Gordinho e cheio de espinhas, Alfredinho passava os dias lendo quadrinhos, jogando RPG e discutindo qual trilogia era melhor, Senhor dos Anéis ou Star Wars. Era o que se chamava de Nerd. No sentido mais puro da palavra. Durante a noite, nos chats, fóruns, twitters e MMORpg’s da vida, ele era Alundil, o Elfo.

Alfredinho sempre foi o motivo das piadas de Edinho, o popstar da galera. Forte, loiro e rico, Edinho era o centro das atenções. Os meninos o invejavam. As garotas o desejavam e ele sabia aproveitar essa fama. Beijos depois da aula, no muro da escola era o que não faltava. Mas ele não podia topar com o gordinho. Sempre com uma piadinha na ponta da língua. A mais clássica era levantar quando Alfredinho sentava. Aquele movimento de “ser jogado pra cima”. Quem nunca fez isso?

Mas o futuro tinha planos para Alfredinho e Edinho. Alfredinho, entre um festival de Cosplay e uma partida de D&D, estudava e lia bastante. Tinha um futuro promissor, como era de se esperar. Já Edinho, no tempo livre, ficava na internet buscando “mulheres com seios enormes” no Google e tentando ver suas amiguinhas peladas pela webcam.

Os anos foram passando, e Alfredinho foi emagrecendo. Sabe aquela fase em que os homens crescem de uma vez? Então, Alfredinho cresceu e a gordura acumulada foi melhor distribuida. Não era o que podia se chamar de magro, mas também não era mais o gordinho nerd da turma. Bom, ainda era nerd, mas não tão gordinho assim.

E lá foi Alfredinho, cursar a sua faculdade de Ciências da Computação, enquanto Edinho passava em centézimo lugar excedente no curso de Educação Física de uma tradicional faculdade particular.

Mais forte do que nunca, Edinho logo se tornou o centro das atenções na sua nova sala. Ele era bonito, tenho que confessar. Se fosse mulher, eu daria pra ele.

Alfredinho não chamava a atenção. Ninguém reparava naquele pobre nerd.

Mas como é o costume das faculdades, era chegada a hora do trote. Edinho como era descolado e pra frente, foi poupado no seu trote. Só teve a cabeça raspada e o rosto pintado. Nesse dia, Edinho conheceu Silmara. Uma veterana gostosa da sua faculdade. A quimica foi imediata. Ela já tinha a ficha completa de Edinho. Sabia que o pai era deputado e que ele morava em um dos mais tradicionais bairros da cidade. Ela não era interesseira, longe disso, mas queria um futuro garantido. Ali começou um romance que prometia. Vinte minutos depois Silmara já estava sem a calça de ginástica e Edinho sem a sua bermuda Adidas no vestiário da faculdade. Saíram de lá namorando. Apaixonados.

Já o nosso nerd favorito, Alfredinho, estava sendo exposto às mais tenebrosas formas de tortura que um calouro poderia passar. Os alunos de Ciências da Computação eram o alvo preferido dos veteranos. Coitados, sempre humilhados.

Durante o trote, um grupo de alunos arrastou o mais tímido dos calouros, Alfredinho, para um canto mais afastado e tiraram a roupa do pobre nerd. Alfredinho queria chorar, mas estava na faculdade. Ele aguentou bem. Ele não entendeu a cara de espanto dos outros alunos ao verem pelado. Era uma mistura de terror, admiração e curiosidade. Ficaram surpresos ao ver que Alfredinho tinha um enorme diferencial.

No meio desses alunos estava Pablo. Para vocês ele não é ninguém, mas para quem curte uma putaria virtual, ele era simplesmente o dono do maior portal de pornografia brasileiro. Uma mente brilhante. E dono de um negócios em franca expansão, afinal, os seus vídeos faziam sucesso e o número de assinaturas do site crescia assustadoramente. Edinho assinava. Se não me falha a memória, foi um dos primeiros a assinar.

Pablo viu em Alfredinho uma mina de ouro. Iria aproveitar aquele nerd. Ia transformá-lo em um homem. O garoto tinha potencial.

- Ai, gordinho. Tu conhece o buraco69.net?
- Conheço sim. Disse Alfredinho acanhado.
- Prazer, Mr. Cock, administrador. Disse Pablo estendendo a mão. Tenho planos para você.

Pablo estava investindo pesado em vídeos amadores. Pagava uma mixaria para algumas garotas e as filmava fazendo sua mágica. Ele era um mago do cinema. Era o Hitchcock do cinema pornográfico amador brasileiro.

Às oito horas da manhã do dia combinado lá estava Alfredinho. Acanhado, mas estava lá. Pablo, ou Mr. Cock como gostava de ser chamado, chegara com a garota que filmaria a cena. Um mulherão.

Para Alfredinho, que de mulher pelada, só tinha visto sua mãe e as garotas do buraco69.net, aquela oportunidade era de ouro. Ganhou uma grana para fazer aquilo que nunca havia feito até aquele dia.

Aquela mulher era sensacional. Ela comandou o show. Alfredinho não teve que fazer muito esforço. Apenas deixou o seu astro trabalhar. E ele trabalhou como nunca tinha trabalhado antes. É aquele ditado, pra quem come ovo frito, comer caviar é sonho. Bom, pra quem só conhecia a própria mão, aquela garota era uma espécie de Sylvia Saint brasileira.

O nerd fez como o combinado. Mr. Cock gravou a cena e ao final, pagou a garota.

Vídeo editado e dois dias depois estava no ar.

Foi um sucesso. Nas primeiras horas mais de 500 downloads e 50 assinaturas novas por hora. Todo mundo queria prestigiar aquele fenômeno sexual. Começava a ficar conhecido como o Messias do pornô. O Rocco brasileiro. O cara que substituiria Kid Bengala.

Edinho chegou em casa e acessou o buraco69.net. Tinha acabado de chegar da casa de Silmara. Foi conhecer a família da namorada e saborear um delicioso strogonoff de frango, que a mãe de Silmara fez questão de cozinhar. Que garota. Não podia ter escolhido uma namorada melhor.
Logo de cara já viu o banner, aquela cena sensacional. Foi logo baixando. Vinte e cinco minutos depois o download estava concluído. E lá vai Edinho dar o Play no seu MidiaPlayer com as calças arriadas.

O filme começou e de cara ele reconheceu Alfredinho. Mas que porra esse gordo nerd tá fazendo ai? Pensou.

Quando Alfredinho tirou a calça, Edinho tomou um susto. Não conseguia parar de olhar para aquela cena. Algo na tela chamava a sua atenção. Olhou para sua cintura e para a tela. Para a cintura e para a tela novamente. O gordo nerd fora subestimado a sua vida toda.

De repente entra aquele mulherão em cena. A câmera pegava as suas pernas e ia subindo devagar. Estava apenas de biquini. Edinho pensou, pelo menos essa garota vai dar uma canseira no gordinho.

Ela já chegou ajoelhando em frente a Alfredinho no vídeo. A câmera se movimentou, subiu pela suas costas e deu a volta, focalizando o seu rosto.

- Puta que o pariu!!! Gritou Edinho.

Na sua frente, na tela do monitor, Silmara estava iniciando o que seria considerado por todos os Nerds, a maior foda de todos os tempos.

A essa altura surgiam milhares de janelas no MSN de Edinho, e seus scraps aumentaram consideravelmente.

Pois é. Nunca subestime aquele gordinho da sua escola. Ele pode ter um talento bem maior que o seu.

Enquanto isso…

Oficialmente temos um domínio .COM agora! Uhulll! hehehehehehe

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Profissão

Em um belo dia de domingo, enquanto acessava sua internet discada, o jovem Clóvis da Silveira acessou o seu orkut, a fim de ver alguns recados que estava esperando. Cantou uma gatinha e aguardava o resultado da investida.

Assim que entrou na sua home, algo chamou a sua atenção. Sabe aquele estalo que dá na nossa cabeça e nos faz despertar para alguma coisa? Então. Foi o toque divino. Foi o que levou nosso jovem Clovinho ao estrelato e sucesso. Apenas uma frase, um pensamento alçou nosso jovem para a glória. Na sua home do orkut estava escrito:

Sorte de hoje: Você tem um equipamento incomum para o sucesso, use-o corretamente

Foi o suficiente para que Clóvis da Silveira se tornasse o ídolo mór da safardanagem brasileira, um dos “maiores” ícones da sétima arte (onanista) brasileira. Essa simples sorte do dia transformou o antes desconhecido Clóvis da Silveira em Kid Bengala.

Pedido

Querido Papai Noel,

O ano está acabando e com ele mais um natal sem presentes. Será que não fui um bom garoto? Trabalhei todos os dias desse ano. Saía de casa às 6h da manhã e voltava as 22h. Nem sempre com o dinheiro necessário para sustentar minha mãe e meus quatro irmãos.
Quando podia, lia algumas coisas, já que não tenho tempo para estudar. Não tenho tempo e nem dinheiro, já que a escola mais próxima que poderia me matricular fica do outro lado da cidade. Estudar em uma escola particular nem pensar. Ou estudo ou minha família morre de fome. Estudo não enche barriga, ao contrário do dinheiro que tento conseguir todos os dias.

Será que deixei de cumprir alguma obrigação? Será que não vou ganhar presentes por não almoçar direito? Não é sempre que temos alguma coisa em casa para comer. Como sou mais velho, deixo o pouco que tem para os meus irmãos, mas mesmo assim, nem eles ganham nada no natal.

Será que nossas cartas não chegam até o Polo Norte? Acho que os selos que podemos comprar não são suficiente para uma carta que pretende chegar tão longe.
Ás vezes acho que o Senhor realmente não existe. Muitos dizem isso, mas não acredito. Não acredito porquê sempre vejo crianças com presentes no dia de Natal.

Pode ser que o senhor não receba minha carta, ou tenha medo de subir onde eu moro. Muitas pessoas tem medo. Têm que pedir autorização pra quem toma conta daqui. Quem toma conta de onde eu moro, são pessoas do “movimento”. Acho que elas não acreditam no senhor, mas isso não impede que eu acredite.

Escrevo essa carta tendo a esperança de todos os anos. A esperança de que o senhor vai recebê-la e na véspera do Natal, quando der meia-noite, o senhor vai chegar no seu trenó e deixar os nossos presentes na porta de casa. Na porta, não temos chaminé. Mas acho que o senhor não importa não é mesmo? Isso não é muito comum no meu país.

O que eu mais quero nesse Natal é que eu não dependa do meu trabalho. Eu gosto do meu trabalho. Mas gosto de ler, de escrever. Gosto de estudar e saber o que acontece no mundo. Gosto de fazer cálculos quando preciso e gosto de saber a história do meu país. Gosto de saber porquê falam tanto nesse tal de aquecimento global. Gosto, mas não consigo entender. Não consigo porquê não estudo. Eu quero estudar. Quero orgulhar minha mãe. Quero fazer algo que ela possa lembrar e se orgulhar. Quero que meus irmãos saibam que eu faço o melhor por eles.

Eu sei que isso pode não ser nada perto de milhares de video-games, computadores, bicicletas, bonecas e carrinhos que o senhor recebe como pedido todos os anos. As vezes um pedido assim pode passar despercebido. Ou pode ser que seus elfos ainda não saibam como construir escolas ou escrever livros. Eles devem ser como eu. Só devem saber construir brinquedos, da mesma forma que só sei vender balas no mesmo sinal. Faço isso desde que me tornei gente. Gostaria de fazer outra coisa. Não que eu não goste do que faço, apenas queria fazer coisas novas e que as pessoas não me ignorassem.

Alguns acham que sou bandido, Papai Noel. Quando olham pra mim fecham as janelas dos carros. Não entendem que eu estou alí só para vender balas. Acham que estou alí para disparar balas. Eu não quero ser visto assim. Quero ser visto como o senhor, que todos abrem a porta para receber. Sempre com um sorriso no rosto, um copo de leite e biscoitos. Será demais pedir isso?

Vou encerrando minha carta por aqui. O senhor deve estar cheio de pedidos para atender. Sei que é difícil para o senhor, mas sei também que não deixa nenhuma criança na mão. Se deixa não é por mal, tenho certeza. Sei que o senhor não deve receber minhas cartas. Só pode ser essa, a única explicação para eu não ganhar nada. Mas eu não fico chateado com o senhor. Sei por experiência própria. É a mesma coisa quando chega o final do mês e o dinheiro que consegui não dá pra pagar as contas e comprar comida para todo mundo aqui em casa. Ninguém fica decepcionado comigo. Sabem que não foi minha culpa. Foi apenas um mês apertado, mas mesmo assim continuam acreditando em mim. Como eu acredito no senhor. Sei que existe, e quando tiver a oportunidade de ler a minha carta, vai atender ao meu pedido.

Não ligo se demorar. Eu tenho fé no senhor. Eu, meus irmãos e minha mãe. Nunca deixaremos de acreditar, mesmo que todos ao nosso redor digam que o senhor não existe. Sei que existe.

Se receber a minha carta, por favor, tente me dar a oportunidade de saber sobre o mundo e as coisas que existem nele. Se for demais, apenas dê alguma coisa que a gente possa comer aqui em casa. O senhor sempre será bem vindo aqui. Em qualquer época do ano. A porta sempre estará aberta.

Atenciosamente…

Supermercado

Se existe uma coisa que eu odeio, essa coisa é andar em lugares com muita gente. Lugares como supermercados, shoppings, centro da cidade e uma outra infinidade de lugares onde as pessoas se aglomeram e andam sem rumo.

Hoje foi dia de fazer compras com a mamãe e o papai. Não que seja uma tradição de família, algo centenário, iniciado no século passado no empório do Seu Manoel. Não, não é uma tradição. Nem sei porque eu disse que hoje foi dia de fazer, eu nunca vou com eles. Mas enfim, onde parei mesmo? Sim, no dia de fazer compras.

Chegamos no supermercado e fizemos toda aquela rotina de movimentos. Entra no estacionamento, procura uma vaga, acha uma vaga, estaciona o carro, sai do carro, pega carrinho de compras, tira listinha da bolsa, entra no supermercado e procura os ítens da listinha. Se fosse só isso, estaria tudo bem, mas supermercados são verdadeiros eventos de grande massa. Todo mundo resolve ir no mesmo dia. Logo no dia que eu resolvo ir.

Aquele tanto de gente andando sem rumo, atropelando o calcanhar alheio, caçando as moças da degustação. Que por incrível que pareça, sempre são mais gostosas que o produto que distribuem. Quem me dera degustar uma delas.
Como se não bastasse isso, tem aquelas pessoas que colocam seus filhos dentro do carrinho de compras. A criança geralmente com fome, ao passar pelo corredor de Chips, biscoitos e chocolates naturalmente vai começar a pedir tudo que vê pela frente.
Chorando elas pedem de tudo e mamãe, com a gentileza de um zagueiro de futebol americano sempre corta a vontade da criança com frases do tipo:
- Não vou te dar Rufles não Wanderley! (Leia Rufles, não Rafaus.)
- Egislaine, guarda esse pacote de biscoito, tem câmera aqui.
- “Creiton”, pega essa maçã e cala a boca.

Um verdadeiro inferno, diga-se de passagem.

Na fila da carne então é onde se encontra o maior número de figuras do supermercado. Aqueles churrasqueiros profissionais de fim de semana. De seis em seis meses, claro. Ficar vinte minutos nessa fila equivale a ler três livros de receitas.
Você aprende a fazer picanha argentina com recheio de bacon, pão com alho do Tio Tião, maminha na brasa, carne moída com quiabo. Maravilhas da cozinha tradicional mineira.

Mas a melhor parte de se ir a um supermercado, é a hora de ir embora, com as compras no porta malas e no caminho de casa.

Fui!

Mil tretas

Era um garoto de classe média alta mas gostava de se vestir como os garotos que ele via descendo do morro.
Bermuda da Cyclone, camisa de uma banda de Rap qualquer e boné com a aba reta. Utilizava também o mesmo linguajar. Enfim, adorava se mostrar como “favelado”.
Na escola infelizmente ele não podia usar as suas roupas, era obrigado a utilizar o uniforme. Bom, o uniforme mesmo era só a camisa, a calça jeans e o tênis não faziam parte.
Certo dia voltando da sua escola, com a sua calça jeans de algumas centenas de reais e o seu tênis de algumas molas, foi parado por cinco meninos do “morro”.

- Perdeu boy, tira tudo aí. Tira a calça, tira o tênis, passa a carteira, o relógio e o celular.
- Anda boy.
- Ca-ca-calma.

Começou a chorar. Fora assaltado pelos garotos que idolatrava.
Chegou em casa só de blusa e cueca. Foi logo chorando para os braços da sua mãe.

- Aqueles favelados filhos de uma puta. Odeio esses desgraçados!

Daquele dia em diante, passou a se vestir como um “boy” da classe média.

O pessimista


Eu não sou um cara pessimista, só acho que as coisas nunca dão certo pra mim. Sempre que vou fazer alguma coisa, algo me diz que não vai dar certo, então, é melhor nem tentar.

Eu não sou um cara pessimista, não, longe disso. Só que teve uma vez que eu fui fazer uma prova, mas eu já sabia que não ia passar, nem me poupei ao trabalho de estudar. Fui marcando tudo que via pela frente.

Eu não sou um cara pessimista não. Sou até extremamente otimista na maioria das vezes. Eu só evito chegar em garotas porque é fato eu tomar um toco. Coisa que um cara pessimista não faria, claro.

Pessimista? Quem? Eu? Eu não, só porque eu já sei que vou tomar bomba em algumas matérias logo no início do semestre? Claro que não, eu apenas avalio as estatísticas poxa. Um cara pessimista só diria que isso no final do semestre, eu sou é precavido!

Não me venha com essa de cara negativo, do jeito que o meu time está jogando, é claro que ele vai ser rebaixado. O que? E daí que só estamos na segunda rodada? Isso só vai se confirmar nas outras quarenta e seis!

Vou ficando por aqui, estou achando essa conversa muito pessimista. Onde já se viu? Me chamar de pessimista? Logo eu? Se eu não soubesse que esse post ia dar pau, nem tinha salvo no Word.

Fui!

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