Certas tragédias são anunciadas. Aquela já estava marcada fazia tempo. Era inevitável.
De um lado, Afonsinho. Menino magrinho, do tipo que se pode até contar as costelas enquanto despreguiça. Mas ele era ágil. E como era. Corria como ninguém. Carlão que o diga. Ah o Carlão! Era o valentão da escola. Roubava o Fandangos dos mais fracos, roubava os cards de Magic dos nerds e desprezava qualquer outro garoto menor e mais fraco que ele. Desprezava não seria o termo. Ele destruia. Se ele fosse um personagem de Street Fighter, seria o Zangieff.
Mas Carlão nunca conseguiu pegar Afonsinho. O garoto corria. Parecia uma pena sendo carregada pelo vento. Carlão sabia que mais dia menos dia, pegaria Afonsinho na porrada, e ele machucaria e muito o pobre magrelo.
Em mais um recreio, logo após roubar os tazos de Fernandinho, roubar a coxinha de Catupiry de Fred e ainda roubar um beijo de Mariana, Carlão viu de longe o pequeno e indefeso Afonsinho. Carlão parecia estar possesso. Saiu empurrando todo mundo. O melhor amigo de Afonsinho, o Orelha, o grande orelha. Em todos os sentidos, olhou pra Afonsinho e disse:
- Lá vem merda.
Não deu outra. Carlão já chegou chutando o tabuleiro de D&D de Afonsinho. Nem o D20 sobrou pra contar história. Saudoso D20.
Por ter um excelente reflexo, Afonsinho pulou para o lado e olhou assustado. Carlão deu um berro dizendo: Hoje eu te pego magrelo. Mas antes de terminar a palavra “hoje”, Afonsinho já estava longe, entrando na sala de aula e sentando na sua cadeira perto da professora.
Não demorou muito e um bilhetinho chegou a sua mesa:
Vou te dar uma chance. Amanhã depois da aula, perto da barraca do Seu Zé. Só nós dois. Se eu ganhar, você me dá seu lanche e seu dinheiro todo dia. Se você ganhar, eu te deixo em paz.
Ao ler o bilhete, as finas e peladas pernas de Afonsinho tremeram. Mas ele sabia que era inevitável. Ele teria que encarar Carlão. Teria que colocar toda a sua força, destreza e inteligência a prova. Estava prestes a rolar os dados, e tudo que ele menos desejava era um erro crítico.
Ele apenas escreveu no bilhete: Desafio aceito. Estava lançada a sorte.
Você sabe como é escola, as notícias correm rápido. Todo mundo já estava sabendo do confronto. Orelha foi o primeiro a se manifestar. Era um amigão, diga-se de passagem, mas ele sabia das coisas:
- Cara, sabe que eu te acompanho em tudo. A gente é amigo desde que me entendo por espermatozóide, mas caramba. Enfrentar o Carlão? Você quer eu leve as más notícias para a sua mãe?
- Esse é o meu fardo, Orelha. Eu aceito o meu destino. Disse Afonsinho com um ar de reflexão.
- Afonso Fernando de Oliveira. Deixa eu explicar as coisas de uma forma que você vai entender. O Carlão é o Apollo Doutrinador, você é o Garanhão Italiano, mas sem músculos. E sem o Italiano. Pra falar a verdade, nem garanhão. O cara vai te doutrinar.
- Em todos os Rockys, o Balboa sempre ganhou. Disse Afonsinho tentando reverter a situação e consolar o amigo.
- Tudo bem, Afonso. Eu tenho um mal pressentimento em relação a isso. Mas como você disse, o fardo é seu. Que a força esteja com você.
E assim foi. Afonsinho foi para casa. Tinha 24 horas para treinar, pensar e formular uma estratégia de combate. Por coincidência, ou não, estava passando Rocky III na tv a cabo.
Não poderia ter filme melhor. Carlão estava mais para Clubber Lang do que para Apollo Creed. Era lá e cá. Rocky treinava ao som de Eyes of Tiger e Afonsinho acompanhava cada passo. Durante a luta, tentava assimilar cada golpe que Rocky desferia. Mas como todo mundo sabe, Rocky apanha em todos os filmes. Só bate nos 5 minutos finais e ganha.
Afonsinho começou a repensar a sua decisão. Resolveu jogar um pouco de World of Warcraft para esfriar a cabeça. Seu primo, Alfredinho estava online. Ele era seu conselheiro. Entedia das coisas. Mas nenhuma palavra era suficiente. O fim estava próximo.
Chegou o grande dia. A escola estava empolvorosa. O assunto era a luta. Para alguns, Afonsinho estava para Jake La Motta, assim como Paris Hilton estava para Maryl Streep. Ou seja, estava fodido.
Alguns poucos garotos soltavam uma ou outra frase de apoio. Alguns fizeram até vaquinha para comprar uma coroa de flores. A morte era certa. Carlão era invicto na escola. O cara era uma lenda. Com 7 anos de idade, dizem que matou um PitBull com uma mordida. Coitado do pobre cão.
Pindoca, que era o apostador da galera, dizia que estava 6 para 1. Era Carlão na cabeça. Iria faturar alto naquele dia.
Os minutos custavam a passar. Cada volta do ponteiro era uma tortura para Afonsinho. Sua vida foi passando diante de seus olhos durante todo o dia. Lembrou-se do seu primeiro video game. Um Master System III, que veio com Sonic. Lembrou do seu quase primeiro beijo. Poxa. Morreria virgem. De boca e de outras coisas. Lembrou do seu primeiro Action Figure de Star Wars. Um excelente exemplar de Han Solo, feito em chumbinho da melhor qualidade. Só faltava falar, de tão real.
Fez um pequeno testamento, deixando tudo para Orelha, que a essa altura já não tinha mais as unhas dos dedos. Roera todas.
- Cara, ainda dá tempo de desistir. Você não é um covarde. Isso é sobrevivência. Pensa bem. Você pode perpetuar a espécie. Não vai dar mole.
- Orelha. O fim está próximo. Mas não me entregarei sem luta. Se eu morrer, morrerei lutando. Eu represento a esperança de cada aluno maltratado pelo Carlão. Para eles, eu sou Luke Skywalker, a esperança da Aliança Rebelde.
Sem dúvida. Os alunos que sempre foram maltratados por Carlão olhavam com admiração para Afonsinho. Até tiraram as medidas do garoto para fazer uma estátua em sua homenagem.
O sinal tocou. Era chegada a hora. Afonsinho caminhava tranquilamente, rumo a sua Fenda da Perdição.
O clima era fúnebre. O fim era próximo.
No local combinado, em frente a barraca do Seu Zé, já estava formada a rodinha. Coincidência ou não, havia uma ambulância estacionada do outro lado da rua.
Carlão, com uma cara mais assustadora do que nunca, já tinha tirado sua camisa do uniforme e ostentava uma camiseta rasgada nos braços, com um enorme Eddie e um Iron Maiden de todo tamanho. Mais valentão impossível.
Afonsinho, o nosso herói, ou quase isso, mirradinho como só ele, estava com sua camisa Nerd Power. Se era pra morrer, que fosse com classe e estilo.
- É magrelo, de hoje você não passa. Não vai ter corridinha nem nada do tipo. Carlão soava mais ameaçador ainda, quando falava nesse tom.
- Cara, whatever. Curto e grosso o tal do Afonsinho.
E Pindoca soou o gongo. Ou uma batidinha com um espetinho na grade da escola.
Carlão foi furioso para cima de Afonsinho. Deu um soco no ar e Afonsinho se esquivou. Sentia que estava prestes a tomar uma surra homérica. Algo nunca antes visto.
Carlão veio de novo, e Afonsinho usou mais uma vez o seu reflexo. Santo Guitar Hero, pensou Afonsinho. Se não fosse pelo jogo, não conseguiria prestar tanta atenção às investidas de Carlão. Mas bem no meio de seus pensamentos, sentiu uma pancada no lado esquerdo do rosto. Nesse momento tudo ficou escuro. Orelha, que estava na frente da multidão, se transformou em uma espécie de pintura de Salvador Dali. Ficou deformado, meio derretendo. As vozes ficaram distorcidas e o chão ficou próximo. Muito próximo. Tão próximo que seu nariz encostou no passeio sujo.
Um cruzado de direita de Carlão. Atingiu bem em cheio o rosto de Afonsinho. Nunca sentiu uma dor tão forte. Mas isso o fez acordar. Claro, depois de uns 3 minutos. Com esse soco, o Nível de Experiência de Afonsinho aumentou. Tipo uns 5 níveis. Era hora de mostrar que não era tão fraco assim.
Lembrou-se de Paulie falando com Rocky durante a luta contra Ivan Drago. Acerte o do meio. Afonsinho estava enxergando três Carlões. Foi para cima de Carlão e deu um soco. Aliás, deu O soco. O maior soco da sua vida. Concentrou toda a força que tinha nesse soco. Parecia coisa de cinema. Sua mão seguindo em direção ao nariz de Carlão. Atrás da sua mão, o rastro. Estilo Bullet Time do Matrix. De repente o rosto de Carlão foi se afastando. Afastando. E tum. Tomou uma joelhada na boca do estômago.
Sentiu a sua merenda querendo sair pela boca e por outros lugares. Estava fadado a morrer, coitado.
Caiu no chão. Encolhido. Só queria que aquilo terminasse.
Olhou para o lado e viu Orelha. Orelha coitado, não sabia muito bem o que estava fazendo, mas foi em direção a Carlão, que estava de costas. Durante a corrida, Orelha pulou e como se fosse um lutador da WWE, que era fã, e colou os dois pés nas costas de Carlão. Coitado, Carlão deu dois passos para frente, virou-se para Orelha e tascou-lhe um sopapo na orelha. Parecia que uma granada tinha explodido perto da sua cabeça. Orelha não escutava nada. Literalmente.
Aquela cena parece que comoveu as vítimas de Carlão. De repente um bando de pequenos e indefesos garotos foram pra cima do valentão. Parecia aquelas cenas épicas de filmes, onde um exército vai de encontro ao outro. No nosso caso, era um bando e magrelos e nanicos indo pra cima de um brutamontes.
O primeiro tomou uma pesada na cara e caiu no chão. O segundo uma cotuvelada no nariz. Quando viu o sangue, desmaiou. O terceiro hesitou. Mas essa distração ajudou Afonsinho, que não estava morto nem nada. Levantou e por trás acertou um chute no meio das pernas de Carlão. Ali era a zona proibida colega. Ninguém aguentava uma pancada naquela área. Se existia o tal do Calcanhar de Aquiles, era uma grande lorota. Deveria se chamar Bago de Aquiles.
Carlão gemeu de dor, se ajoelhou e sentiu aquela dor típica logo acima do abdômen. Queria chorar. Mas nem isso conseguiu. Logo em seguida tomou mais uma pancada, dessa vez na nuca. Era Orelha. Completamente surdo, mas ainda sim deu uma piaba em Carlão.
Aquela foi a deixa para todos os outros garotos pularem em cima de Carlão. Ele parecia uma açucarada e saborosa bala e os outros alunos um bando de formiga sedentas por açúcar.
Depois de algumas pancadas, Carlão começou a chorar. Se levantou e saiu correndo.
Nas calças, uma pequena mancha marrom. Quando a turma viu, caiu na gargalhada.
Naquele dia Afonsinho se tornou um herói. Venceu o seu desafio. A sua prova. Saiu de lá com um roxo no olho mas consagrado.
Já Carlão, coitado. Ficou com tanto medo e tanta vergonha que pediu para mudar de escola. Hoje em dia bate em outros molequinhos do outro lado da cidade. Não toma jeito, aquele mequetrefe.