A emocionante história de Ricardo Tavarez, o pro-blogger que só queria ser amado.

Posted by in Arquivo, Histórias

Por trás de luxuosos passeios patrocinados por anunciantes regados à Bavária e charutos importados da Guatemala, existe toda uma realidade, um dia a dia na vida de um pro-blogger. Esta é a história de um cara, igual a eu ou você, que se esforçou, que lutou, prosperou e hoje em dia é um dos mais renomados e conceituados blogueiros do Brasil, quiçá do mundo.

Ricardo Tavarez era um garoto comum. Criado em um bairro de classe média, teve o seu primeiro contato com o incrível mundo da informática aos 13 anos de idade (o primeiro contato com uma mulher nua de verdade, só veio ocorrer anos depois, muitos anos depois). Desde então se apaixonou pelas maravilhas proporcionadas pelo computador.  O jovem Ricardo começou a entender a máquina como ningém. Em poucos meses já estava programando e aprendendo cada vez mais.

Os anos foram passando e Ricardo Tavarez descobrira uma nova maravilha em relação aos computadores: a Internet. Sua casa foi uma das primeiras a possuir uma conexão com a grande rede. Ricardo passava horas e horas participando de listas de discussão e bulletins. Depois, resolveu avançar um pouco mais e começou a acessar salas de bate-papo e em pouco tempo já estava criando os seus próprios sites. Era um prodígio, sem sombra de dúvida.

Ricardo acompanhou de perto a evolução da Internet no Brasil e, como fazia parte do pequeno grupo de usuários que desbravavam essa terra inexplorada em busca de oportunidades, em pouco tempo foi fazendo grandes amigos virtuais, que, assim como ele, passavam horas e horas em frente ao computador absorvendo informação, música pirata, pornografia e programando.

Em 1998, ao participar de listas de discussão do mundo todo e ser um cara antenado, Ricardo descobriu uma nova ferramenta que vinha ganhando força nos Estados Unidos. Como  sempre foi um cara bem informado e que adorava descobrir e difundir tendências, foi logo criando o seu “blog”. Ricardo não fazia idéia, nem seus amigos, de que essa seria a ferramenta do futuro e que anos mais tarde os tornariam personalidades na Internet. E o nosso jovem montou o seu blog, o Barraca Armada.

O Barraca Armada era um espaço pessoal onde Ricardo Tavarez podia contar sobre a sua vida, o seu dia a dia, as suas aventuras e desventuras, ao contrários dos seus sites, que geralmente eram acessados por usuários fiéis e que não se interessariam em saber que o gatinho de Ricardo, o Ulisses, havia derrubado um pote de Whiskas no teclado do K6-II velho de guerra. O blog proporcionava essa liberdade e Ricardo adorou. Sentia-se livre, como não se sentia há anos.

Os anos foram passando e Ricardo e o Barraca Armada foram se tornando cada vez mais populares. Sua rede de amigos virtuais crescia em progressão geométrica. Por ser um dos primeiros, senão o primeiro blogueiro brasileiro, Ricardo se tornou referência na hora de criar um blog. Todos pergutavam ao rapaz o que era necessário para se obter o sucesso. Com isso, Ricardo foi se tornando vaidoso. Quem antes era um humilde usuário de internet, ao se ver como exemplo para os demais, foi sentindo o gosto do poder. O gosto doce e prazeroso de, certa forma, ser superior aos demais.

Com alguns anos de blog, Ricardo descobriu uma ferramenta mágica criada pelo Google: o AdSense. Essa incrível ferramenta pagava aos administradores de sites, blogs ou fóruns um valor determinado a cada clique de anúncio veiculado. E o melhor de tudo: em dólar. Renato, curioso como só, resolveu utilizar a ferramenta e experimentar, quem sabe dalí não saíria uma graninha?

E como um magnata da mídia, Ricardo Tavarez prosperou. Em um dia recebia mais de 500 cliques em seus anúncios AdSense e faturava altíssimo. 50, 60 dólares por dia. Em um mês Ricardo já havia ganhado com seu blog o que ganharia em três meses de trabalho. A internet era o arco-íris, o blog, o pote de ouro no final, e Ricardo, era o mocinho que cruzava o arco-íris em busca do ouro.

As horas em um cubículo de uma copiadora tirando fotocópias deram lugar a horas e mais horas em frente ao computador. Ricardo largou o  emprego de auxiliar de fotocópia e resolveu adentrar com tudo no mundo dos blogs como negócio. Assim como no esporte, Ricardo agora era um profissional dos blogs, ou como ele gostava (gosta ainda) de ser chamado: pro-blogger.

Percebendo o crescente potencial da Internet como veículo de comunicação, e acima de tudo, dos blogs, as agências de publicidade resolveram explorar esse novo mundo e começaram, bem timidamente, a procurar blogueiros para anunciar campanhas, produtos e empresas nos seus espaços virtuais. O que antes era um diário, divertido e descompromissado, se tornava um local de trabalho. O que Ricardo havia comido no almoço não importava mais. Ao invés disso ele postava críticas ácidas à sociedade, à comunicação, um ou outro assunto que estava bombando no momento e agora, posts patrocinados por empresas.

Era uma nova era. A era da profissionalização dos blogs e dos blogueiros. Ter um blog agora era sinal de maturidade, empreendedorismo e uma visão de mercado sem precedentes. O dinheiro entrava como água na conta de Ricardo. Ele se permitia pequenos luxos como uma cervejinha no final de semana, uma baladinha no sábado, vez ou outra pagava uma garota de programa. Era um mundo mágico, um sonho do qual Ricardo não queria acordar.

Aquele menino gordinho, suado e cheio de espinhas que sempre fora humilhado pelos amigos na infância, hoje era bem sucedido. Tinha amigos de verdade, todos virtuais. Se encontravam uma vez por semana, quando saíam de casa e iam pra algum bar falar sobre monetização, agências de publicidade e tendências nas mídias sociais. Ricardo era o que eu, você e a mídia chamaria de bem-sucedido e relevante na meritocracia da Internet.

O que ninguém imaginava era que, por trás dos posts super badalados do Barraca Armada, dos mimos recebidos por Ricardo para resenhar, que iam desde camisinhas com sabor de morango à suportes para bebedouros industriais, dos eventos repletos de deslumbramento, comida farta e mulheres, existia um blogueiro amargurado. E é sobre essa outra faceta de Ricardo Tavarez que eu gostaria de falar agora.

Ricardo sempre fora um menino caseiro. Isso se agravou com as brincadeiras de mal gosto de seus amigos de infância. Por ser gordinho, ter espinhas e suar demasiadamente, Ricardo era chamado de Croquete. Isso pode ser traumatizante para uma criança e, de fato, foi para Ricardo. Sempre ignorado pelas meninas pela sua aparência, Ricardo foi se recolhendo a um mundo virtual onde poderia ser quem quiser. Se Ricardo fosse Adão, a Internet seria a sua  Eva.

Com a descoberta do blog e o crescente sucesso adquirido na rede, Ricardo foi incorporando novos traços de personalidade. No mundo virtual, quase ninguém sabia como ele era de verdade. A sua personalidade na rede era totalmente oposta ao menino frágil e carente por trás do monitor. Respondia às críticas com um tom severo. Na internet, ele era um valentão e isso foi se tornando uma caraceterística marcante na vida do blogueiro Ricardo Tavarez. Mas, por dentro, ele ainda era o Croquete.

Conversando com Ricardo Tavarez, eu vi em seus olhos um brilho diferente. Ele se sentia bem quando conversava com alguém que o tratasse bem. Uma conversa sincera, frente a frente, com a pessoa, o humano Ricardo Tavarez. Quando o questionei sobre perguntas pessoais, que qualquer jornalista faria, a princípio senti um pouco de hostilidade, mas da mesma forma que as agências de publicidade conquistavam o coração de Ricardo com mimos, eu o conquistei com carinho. Usei um tom de voz sereno, bem calmo, como se fosse um psicólogo, ou até mesmo um melhor amigo, já que o entrevistado, até os dias atuais, não havia tido nenhum “melhor amigo”.

Durante o bate-papo, perguntei ao Ricardo sobre os amores, como andava o coração desse blogueiro que todos adoram. E também pedi para contar um pouco sobre a sua vida amorosa passada e a atual. Ricardo, como a grande maiora dos blogueiros, é tímido, e disse que estava bem. Em tom de brincadeira disse que transava bastante, mais do que planejou quando era adolescente e se entretia acessando sites pornográficos. Mas, da mesma forma com que Ricardo suspeitava de um e-mail malicioso em sua caixa de e-mail, suspeitei que ele estava escondendo algo de mim. Apertando um pouco mais o entrevistado, Ricardo finalmente abriu o seu coração.

Ele nunca havia namorado. Nuunca havia sido amado por ninguém a não ser sua mãe e sua avó. O primeiro beijo e a primeira transa de Ricardo ocorreram no mesmo dia. E com uma blogueira. Uma garota de programa blogueira, diga-se de passagem. Segundo Ricardo, a moça em questão, além de cobrar a hora de programa, ainda cobrou um link e um banner. Como Ricardo esperou 32 anos por aquele dia, um link (com nofollow) e um banner não seriam nada comparado ao mais próximo de ser amado que ele teria.

Ricardo afirma, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar que foi o melhor beijo e a melhor transa de sua vida. Mesmo durando 7 minutos, dos quais 3 foram gastos tentando encontrar o “alvo”. Nesse momento eu percebi que Ricardo, o pro-blogger bem sucedido, referência na área, odiado por milhares, amado por milhões, poderia ser realizado financeiramente, materialmente e possuir um status de celebridade na internet. Mas, no mundo real, a única coisa que esse blogueiro deseja é apenas ser amado. Sem ter que linkar de volta ou pagar por isso.

Escrevo este texto com lágrimas nos olhos ao perceber que, para uma pessoa que tem tudo, uma dos sentimentos mais humanos que existe, o amor, era ainda um bem inalcançável. Ricardo disse que até tentava se aproximar de blogueiras promissoras, oferecendo “suporte” e “dicas” em troca de um pouco de atenção. Mas bastava apenas um encontro pessoal para que toda a magia acabasse e os blogueiros não tão bem sucedidos, mas com um porte físico um pouco menos assustador, se dessem bem em cima das garotas que o nosso querido Ricardo almejava.

Encerro esse artigo com uma pergunta e uma resposta da entrevista original que define bem como é a personalidade de blogueiro que, assim como nós, também é humano:

Como você reage às críticas de pessoas que não concordam com os rumos que os blogs vêm tomando?

Eu quero que todas se danem. Se eu sou bem sucedido, relevante e reconhecido, é pelos meus próprios méritos. Eu sei que sou um daqueles casos típicos de pessoas que causam inveja. Todos querem a minha amizade, mas não basta só adular. Tem que fazer por merecer, entender que, em uma relação que envolva o mundo e eu, não preciso dizer quem dá as cartas, não é mesmo?

Compartilhe!